<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss'><id>tag:blogger.com,1999:blog-7601124</id><updated>2009-02-21T01:47:04.759-03:00</updated><title type='text'>uanabilontra</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://queroserbilontra.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7601124/posts/default'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://queroserbilontra.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><link rel='next' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7601124/posts/default?start-index=26&amp;max-results=25'/><author><name>Irautz Libel</name><email>noreply@blogger.com</email></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>54</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>25</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7601124.post-2727131677038906732</id><published>2008-12-10T00:47:00.000-02:00</published><updated>2008-12-10T00:48:46.548-02:00</updated><title type='text'>A flor do abacate</title><content type='html'>Quando eu era criança, o mundo inteiro estava a meu alcance. As brincadeiras duravam dias, as histórias não se limitavam pelo espaço, apenas a imaginação governava; e a imaginação, para um garoto que passava as tardes no quintal de sua casa, era tão grande quanto o imensurável universo dos adultos.&lt;br /&gt;A cidade, como outras na fronteira entre os estados de São Paulo e Minas Gerais, estava incrustada entre as montanhas, tinha sido fundada como refúgio aos desbravadores, que ali paravam para usar a água do rio que a corta. Na época da minha infância, havia poucas habitações, e a nossa casa ficava num dos morros. A vista era bonita, tínhamos o privilégio de ver a cidade e, no morro ao lado, o Cristo no topo, pairando sobre a cidade e seus habitantes.&lt;br /&gt;Minhas brincadeiras se davam à sombra de um frondoso abacateiro, cujas folhas longas, espessas e escuras proviam um perfeito abrigo para o sol da tarde, abrigo que se transformava em palco de incontáveis batalhas, fortaleza dos meus soldadinhos de plástico, campo inexplorado de uma guerra sem motivos e sem baixas. Quando me cansava a fantasia, era eu mesmo que me tornava o aventureiro a colocar a bandeira inédita do progresso em galhos cada vez mais altos e delgados. Havia uma simples e misteriosa simbiose entre nós. O topo do mundo, como eu via, era o topo do abacateiro, e cada veio de seus troncos, cada folha que nascia, ainda clara, o perfume da seiva, cada formiga ou lagarta que me acompanhava naqueles dias, tinha o mesmo pensamento que o meu, ou talvez nem fosse pensamento, apenas a constatação de que éramos um só, silenciosos nas tardes do interior.&lt;br /&gt;No entanto, à medida em que eu crescia, o abacateiro ficava menor, bem como a imaginação, as escaladas e os detalhes, que meus sentidos teimavam em desperceber. Naturalmente, eu não dava muita atenção àquilo. Meu pai, por sua vez, investia na casa, construiu alguns cômodos, cimentou a entrada, ergueu uma cerca no terreno ao lado e aumentou a grade da varanda que dava para a rua. Cercado por um canteiro, imponente e caprichosamente ignorante de tudo que se passava a seu redor, o abacateiro continuava a florescer. Ele tinha sido plantado porque eu e meu pai adorávamos abacate com leite de manhã. No entanto, já outros gostos se desenvolviam. Agora, o café industrializado, o leite em caixa e o suco concentrado tinham prevalência. Não demorou muito para que os abacates fossem esquecidos. Como já ninguém aproveitava sua sombra, nenhuma rede era pendurada no seu tronco e a seu redor proliferava um ambiente úmido e insalubre, claramente visível nos ladrilhos brancos do novo quintal, também não demorou para que viessem à tona as folhas secas que entupiam os escoadouros, as formigas vermelhas que ameaçavam a horta, e, principalmente, a obstrução da vista de parte da cidade pela folhagem da árvore.&lt;br /&gt;A decisão tinha sido tomada. Não se pensou muito a respeito. Eu mesmo só fiquei sabendo quando o vizinho já estava lá, preparando a motosserra. Era uma manhã de outono e confesso ter sentido uma ponta de tristeza, nada além. Naquele dia, eu só pensava na prova que faria em instantes (não podia me esquecer de onde se encontravam as carnaúbas no mapa colorido do livro de geografia). Quando voltei para casa, o abacateiro não estava mais lá, apenas um toco e uns galhos amontoados junto à cerca de trás da casa. Ainda que uma lágrima vacilasse dentro de mim, retive-a, confiava em meu pai, ele devia ter feito aquilo por uma boa causa. De fato, encontrei-o parado na janela da sacada, olhando para a cidade. Disse-me: "Como cresceu isso tudo... Você se lembra de como era o morro do Cristo antes? Quase nenhuma casa, só o mato e a estradinha." Eu não disse nada. Contemplei a cidade e vi o rio, canalizado, vi o outro morro, o da antena, desmatado, quase estéril, não fosse uma rala vegetação e alguns bois pastando, vi o colorido desenfreado das habitações no centro da cidade, vi um terreno baldio com placas, umas carroças abandonadas e, ao lado, um menino maltrapilho arremessando um pião. Como já era mocinho, fui para trás da casa derrubar a lágrima que agora mais do que se justificava. Então era aquele o espetáculo que o abacateiro me impedia de ver. Não sabia se devia estar agradecido a ele por conhecer a verdade, mas minha covardia me corroía por ter acreditado que a vista larga de desconhecidos hostis era melhor do que a presença amiga e segura de um cúmplice da minha infância. Ali estavam, amontoadas no fundo da casa, a pureza dos meus sonhos, a ilusão de tempos melhores, as saudades de uma felicidade plena.&lt;br /&gt;Eu sobrevivi. Afinal, ainda existem muitas outras árvores por aí. Aquele abacateiro me forneceu um universo na imaginação, ao mesmo tempo em que me protegia da face austera deste mundo, da mesma maneira simples e calada como me protegia do sol. A verdade revelada, por sua vez, me fez crescer e amadurecer. De certo modo, hoje o que sou é fruto de uma flor de abacate.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7601124-2727131677038906732?l=queroserbilontra.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://queroserbilontra.blogspot.com/feeds/2727131677038906732/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=7601124&amp;postID=2727131677038906732&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7601124/posts/default/2727131677038906732'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7601124/posts/default/2727131677038906732'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://queroserbilontra.blogspot.com/2008/12/flor-do-abacate.html' title='A flor do abacate'/><author><name>Irautz Libel</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='13980418396999773170'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7601124.post-6381809952403319715</id><published>2008-07-16T18:26:00.006-03:00</published><updated>2008-07-16T18:51:09.561-03:00</updated><title type='text'>O veludo das virgens</title><content type='html'>Olha os adornos floridos,&lt;br /&gt;Sente o perfume irisado,&lt;br /&gt;Ouve o afinado riso&lt;br /&gt;Das acetinadas&lt;o:p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/o:p&gt;          &lt;p class="MsoNormal"&gt;Virgens, como que vazias&lt;br /&gt;Estrelas no ocaso vivo,&lt;br /&gt;Sentinelas divulgadas&lt;br /&gt;Com forte alarido.&lt;o:p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;          &lt;p class="MsoNormal"&gt;Vê, agora, atrás das portas&lt;br /&gt;Esquecidas, desmontadas&lt;br /&gt;Éguas fortes e fiéis,&lt;br /&gt;Flechas amoladas.&lt;o:p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;                    &lt;p class="MsoNormal"&gt;Verteram atrás de si&lt;br /&gt;Um oceano de sangue.&lt;br /&gt;É seu uso se vestir&lt;br /&gt;De veludo branco.&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;Os pés por si adornados,&lt;br /&gt;As coroas seus cabelos,&lt;br /&gt;Os olhos muitos espelhos&lt;br /&gt;Partiram com zelo.&lt;o:p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;          &lt;p class="MsoNormal"&gt;As belas virgens do ocaso&lt;br /&gt;Amam-te, pela manhã,&lt;br /&gt;Cantam-te belas canções&lt;br /&gt;De um tempo futuro.&lt;o:p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;          &lt;p class="MsoNormal"&gt;No futuro, vespertinas,&lt;br /&gt;Dançam para o horizonte&lt;br /&gt;Abrindo-se a tua semente,&lt;br /&gt;Condição divina.&lt;o:p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;          &lt;p class="MsoNormal"&gt;Resta o sol, tímidos raios&lt;br /&gt;Escondidos, agrupadas&lt;br /&gt;Embaralham-se no ninho,&lt;br /&gt;Cosem as mortalhas.&lt;o:p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;        &lt;p class="MsoNormal"&gt;Vê nos seios mutilados&lt;br /&gt;As palavras, quase nada.&lt;br /&gt;Distantes e sós estão nas&lt;br /&gt;Sombras evaporadas.&lt;/p&gt;          &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;Estimado amigo, vê&lt;br /&gt;O que de grado te digo:&lt;br /&gt;Essa não é mais que aquela&lt;br /&gt;Que diz ser a lua.&lt;/p&gt;          &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;Derruba o sentido agora,&lt;br /&gt;Vira teus versos adentro,&lt;br /&gt;As tulipas, rododendros,&lt;br /&gt;Esquece, e as rosas.&lt;/p&gt;          &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;Há em tua propriedade,&lt;br /&gt;Suficientes e quietas,&lt;br /&gt;(Quiçá mesmo aveludadas)&lt;br /&gt;Mil flores silvestres.&lt;/p&gt;          &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;À noite, dorme feliz,&lt;br /&gt;Não tenhas sonhos, resiste,&lt;br /&gt;Pois a alvorada te espera;&lt;br /&gt;Tens cansada a vista.&lt;/p&gt;          &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;Espera-te a nova vaga.&lt;br /&gt;Mas lembra que no poente&lt;br /&gt;Deixaste uma bela imagem&lt;br /&gt;Por outra, contente.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7601124-6381809952403319715?l=queroserbilontra.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://queroserbilontra.blogspot.com/feeds/6381809952403319715/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=7601124&amp;postID=6381809952403319715&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7601124/posts/default/6381809952403319715'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7601124/posts/default/6381809952403319715'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://queroserbilontra.blogspot.com/2008/07/o-veludo-das-virgens.html' title='O veludo das virgens'/><author><name>Irautz Libel</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='13980418396999773170'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7601124.post-2606449483171115944</id><published>2008-07-16T12:48:00.006-03:00</published><updated>2008-07-16T12:56:59.991-03:00</updated><title type='text'>Uma história polaca (II)</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal"&gt;Numa dessas tardes de outono, fazia um calor incomum e Lubomir, cansado, acabou adormecendo junto a uma de suas árvores prediletas. Ele que nunca sonhava, nesse dia teve um sonho vívido, colorido e detalhado, muito provavelmente porque nem percebeu que dormia. A lembrança seria possível, não fosse o modo com o qual foi acordado; um susto causado por um canto que nunca ouvira, grave, escuro e que vinha de uma árvore ao lado. Já expirava a tarde, segurada delicadamente pelo sol que teimava no horizonte, luz oblíqua. Lubomir avistou o eclipse de uma ave de rapina num corpo atarracado, a criatura virou o pescoço e seus grandes olhos brilharam, uma coruja. Ele nunca havia visto uma e ela parecia não se importar com a presença dele. No entanto, seu amor aos pássaros foi imprudente e a brusquidão com que se levantou fez com que ela alçasse vôo em direção à enseada. Sem pensar, ele seguiu correndo atrás dela pelo labirinto pouco iluminado da floresta que tão bem conhecia. A ave voava, veloz, mas parava sempre em um galho ou outro, tempo de Lubomir quase alcançá-la e ela, novamente assustada, retomar o vôo. Até que, num repente, ela tomou a direção do ocidente e sumiu nas profundezas das árvores velhas, onde Lubomir sabia que não poderia jamais encontrá-la nem segui-la. Sentiu uma tristeza profunda, logo superada pelo pânico ao perceber seus pés molhados e aquela inconfundível brisa soprando o lado direito do seu rosto. Ele estava na enseada.&lt;br /&gt;Olhou para aquela imensidão de água e divisou uma figura, vizinha do sol que se punha. Era uma embarcação simples, com um homem em pé, remando, e uma menina, toda vestida de branco logo atrás. Ela olhava para baixo, mas quando levantou os olhos, direcionou-os para ele e assim os manteve, fixos. O barco se aproximava e Lubomir não conseguia se mexer, tamanho fascínio aquela figura lhe causava. Pensou se não era um dos animais devoradores da água e, embora sentisse muita vontade de fugir dali, não conseguia, seus pés estavam fixos na lama que a água fazia do solo.&lt;br /&gt;Conforme o barco se aproximava, uma sensação inédita tomou conta de Lubomir. Ele percebeu que a menina não olhava para ele, mas sim para um outro ponto fixo em terra, à sua esquerda. Nunca fruto nenhum se mostrou tão doce, nunca pássaro nenhum havia cantado melodia tão bela, nada, nada naquele mundo vasto da floresta se comparava à sensação de ter sido olhado por aquela menina, mesmo que ela sequer tivesse percebido que ele estava ali. O barco também não vinha mais em sua direção, e, no entanto, ele continuava paralisado, olhando para ela. Notou então que ela trazia um colar de contas castanhas, que ele não conseguia entender o que eram, só lindas, e que de alguma forma realçavam os olhos de sua dona. A expressão dela era triste, uma tristeza esperançosa, como se seus olhos buscassem algo na floresta mas seu corpo estivesse preso na imobilidade.&lt;br /&gt;Lubomir voltou para a aldeia, convicto de que nunca mais conseguiria pensar em outra coisa a não ser nos olhos da menina de branco.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7601124-2606449483171115944?l=queroserbilontra.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://queroserbilontra.blogspot.com/feeds/2606449483171115944/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=7601124&amp;postID=2606449483171115944&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7601124/posts/default/2606449483171115944'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7601124/posts/default/2606449483171115944'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://queroserbilontra.blogspot.com/2008/07/numa-dessas-tardes-de-outono-fazia-um.html' title='Uma história polaca (II)'/><author><name>Irautz Libel</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='13980418396999773170'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7601124.post-6675676664196979287</id><published>2008-07-08T23:31:00.008-03:00</published><updated>2008-07-09T00:54:59.660-03:00</updated><title type='text'>Uma história polaca (I)</title><content type='html'>Antes, a floresta já existia. Suas arestas, menos polidas, entravam, tímidas, pela aldeia. As copas, mais cerradas, eram escudos para os dardos solares e as veias de seus caminhos menos cheias de obstáculos. Ainda assim, observados os limites, era pequena, como hoje; cena dos corriqueiros dramas silvestres, misturadas vozes, cores apresentadas.&lt;br /&gt;Antes, havia temporadas. Os pássaros migrados as inauguravam. Viam-se as flores e os frutos, a neve era firma dos antepassados. As pegadas gentis da caça não negligenciavam a honra dos repastos. Nos ventos apenas encontrava-se a discórdia dos movimentos, porque da enseada vinha, como a querer arrastar a floresta. Mas ela permanecia, não porque tinha convicções de estadia, apenas era a floresta e tinha na fertilidade da sua terra a seiva conquistada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lubomir, o filho da aldeia, adorava passar as tardes longe do povo, junto às árvores que margeavam a gleba abaixo de onde morava. Colhia os frutos silvestres, passeava por entre os desenhos solares que se formavam pelas frestas das copas ramadas, passava horas observando o cortejo das formigas na sua lida diária, mas o que mais gostava de fazer era tentar imitar o canto dos pássaros. Nunca fora muito de falar nem de rir, como seus irmãos, mas isso a ninguém importava. Sua mãe era doente e se limitava a ficar feliz se o filho não causasse problemas. Para ele, Lubomir, era melhor que a aldeia nem existisse, só o que queria era sentir-se feliz no silêncio das tardes mornas.&lt;br /&gt;Naquela época, ainda não havia a proibição de passar os limites da floresta. Os paisanos naturalmente não gostavam de se aventurar por lá, só alguns caçadores penetravam na parte oriental, onde estavam o pasto e os animais de maior porte. Com isso, Lubomir nunca tinha visitas, vivia só, sem ser importunado; de tal modo conhecia cada caminho, cada árvore, cada colônia de formigas que, se alguma vez aquela floresta necessitasse de um dono, essa eleição teria esmagadora vitória dele, aclamado pelas raízes seculares, sob a ovação dos eternos musgos das rochas.&lt;br /&gt;A água, no entanto, era temível. Ele conhecia a história das criaturas devoradoras que lá se escondiam, sempre à espera de quem se aproximasse ingenuamente a saciar sua sede. Perto dali, no limite ocidental da floresta, estavam o mangue e o grande carvalho, onde uma vez por ano acontecia a festa do protetor da aldeia, no início da primavera. Lubomir compartilhava do respeito e reverência do povo que, afora esse dia, nunca se avizinhava de lá, com medo dos espíritos que escapavam das inscrições lascadas na grande árvore.&lt;br /&gt;Era costume, naquele tempo, por volta do meio do outono, quando os dias começavam a ficar mais curtos, ter início o plantio do centeio, já que o trigo raramente sobrevivia aos meses de inverno. Lubomir odiava os pães feitos de centeio, odiava mais ainda a cerimônia de preparo deles e passava os dias de outono na floresta, comendo raízes e insetos.&lt;br /&gt;Recentemente, como tinha mais tempo e parecia ter esgotado os artifícios vocais e bucais para imitar os pássaros, e como ainda julgava não estar nem na metade de seu exaustivo trabalho de catalogação dos cantos, tinha arrumado um caniço ali onde o mangue fazia fronteira com a floresta e improvisado uma flauta, da qual conseguia tirar sons mais fortes e agudos e trilos próximos aos de alguns tordos e melros, proeza que suas cordas vocais, estalos e assobios jamais dariam conta.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7601124-6675676664196979287?l=queroserbilontra.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://queroserbilontra.blogspot.com/feeds/6675676664196979287/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=7601124&amp;postID=6675676664196979287&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7601124/posts/default/6675676664196979287'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7601124/posts/default/6675676664196979287'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://queroserbilontra.blogspot.com/2008/07/uma-histria-polaca-i.html' title='Uma história polaca (I)'/><author><name>Irautz Libel</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='13980418396999773170'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7601124.post-1734110170315105330</id><published>2008-07-04T11:44:00.002-03:00</published><updated>2008-07-04T15:06:07.980-03:00</updated><title type='text'>Silêncio, por favor</title><content type='html'>A Biblioteca Branca de Alexandria está escondida.&lt;br /&gt;A Biblioteca Branca de Alexandria está preservada.&lt;br /&gt;A Biblioteca Branca de Alexandria não adquire, não empresta.&lt;br /&gt;A Biblioteca Branca de Alexandria está em decomposição e, no entanto, só cresce.&lt;br /&gt;A Biblioteca Branca de Alexandria contém fungos que há milênios estão extintos de qualquer outro lugar da Terra.&lt;br /&gt;Os fungos mantêm o gesso de que é feita a Biblioteca Branca de Alexandria sempre livre do relento.&lt;br /&gt;A rica vegetação que cobre o átrio da Biblioteca Branca de Alexandria detém em suas moléculas a panacéia da existência.&lt;br /&gt;Sob a crosta de nematódeos de um dos tomos da Biblioteca Branca de Alexandria há o único pensamento verdadeiro jamais composto.&lt;br /&gt;Na eterna penumbra da Biblioteca Branca de Alexandria, os ratos se tornam morcegos vampiros toda noite, e é essa a única maneira de ver o tempo passar.&lt;br /&gt;Só uma flor brota do solo alcalino da Biblioteca Branca de Alexandria e é dela todo o perfume que por lá recende.&lt;br /&gt;Há uma coerência na organização dos volumes da Biblioteca Branca de Alexandria há muito perdida.&lt;br /&gt;A Biblioteca Branca de Alexandria fez de seus empregados escravos, e eles se deram a isso de boa vontade.&lt;br /&gt;Os ossos dos escravos da Biblioteca Branca de Alexandria são brancos.&lt;br /&gt;A Biblioteca Branca de Alexandria não tem mistérios.&lt;br /&gt;Se alguma vez estiveres em Alexandria, não procures por ela, pois a Biblioteca Branca de Alexandria pode estar em qualquer parte, menos em Alexandria.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7601124-1734110170315105330?l=queroserbilontra.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://queroserbilontra.blogspot.com/feeds/1734110170315105330/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=7601124&amp;postID=1734110170315105330&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7601124/posts/default/1734110170315105330'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7601124/posts/default/1734110170315105330'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://queroserbilontra.blogspot.com/2008/07/biblioteca-branca-de-alexandria.html' title='Silêncio, por favor'/><author><name>Irautz Libel</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='13980418396999773170'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7601124.post-5023558800668894290</id><published>2008-07-04T01:24:00.004-03:00</published><updated>2008-07-04T11:43:58.522-03:00</updated><title type='text'>ovo</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal"&gt;Diante de mim, a obra completa. Incontáveis tomos reduzidos a um só. Tive o trabalho redobrado da vida inteira para transformar cada palavra, cada vírgula, em uma forçada memória. Tentei de todas as formas ser breve e justo. Breve ao resumir os feitos, pensar, do alto dos meus avançados anos, o que seria mais edificante para a humanidade, de tudo que vi, compreendi e julguei. Justo ao apresentar todos os lados de uma vida humana exaustivamente vivida, não apenas um auto-encômio a restar empoeirado numa das prateleiras de um caridoso amigo.&lt;br /&gt;Agora, eis o livro, sua capa branca e as páginas, salpicadas de tinta formando as letras que foram minha vida. Poderia recitá-lo, sem nenhuma falha. Mas ao pensar nisso, angustio-me, revivo o grande desgosto de uma passagem, a insatisfatória resposta para um problema em outra, a cruel e crua ingenuidade de uma última, que tanto trabalho me rendeu para achar as palavras certas. Sinto-me um péssimo ator, não sabendo representar minha própria experiência, como, de resto, só se vive de verdade quando não se escreve. A vida inventada é posterior, facilitada para a digestão dos leitores.&lt;br /&gt;Então, sobra-me a consolação de ser lido por quem me conhece, por quem quer me conhecer e encontra algo de interessante nos esconsos dos meus pensamentos desconexos. A esses, o meu perdão do prefácio era desnecessário, porque eles podem ler sem os óculos da arrogância, da soberba de achar que minha sintaxe é a sua, de penetrar minha memória, minha imaginação, quando na verdade, só vivi e escrevi porque queria conversar com eles, naquele âmbito onde qualquer conversa era impossível. Aquele que consegue entender o espaço entre as letras das minhas palavras, a esse minha dedicatória.&lt;br /&gt;Alguns tiram-me o sono. Passo a reler e fazer anotações, emendas, numa tentativa frustrada de fazer com que me entendam, ou que não me entendam e nem tentem me entender. Para esses, fiz uma edição diferente. Cortei os capítulos maçantes, os óbvios, as referências, as hipóteses. Eles têm um manual, uma primeira-mão de gêneros diversos, uma leitura leve e até mesmo humorada, onde nada digo, de maneira muito convincente. Escrevi um livro tolerável, desconfio, para poder tolerá-los.&lt;br /&gt;Outros ainda pretendem ler minhas palavras não por mim, mas para comprovar alguma idéia que já têm, algum falso esconderijo de valores e vícios para apenas desnudar todo o resto das minhas falhas e erros que, aliás, nunca omiti. Para esses, fiz um apanhado de termos, uma enciclopédia biográfica, onde apenas remeto a outros autores que, respeitosamente, servem-me para tirar o peso e o visgo da humanidade hostil que carrego e pretendo que se vá comigo para sempre.&lt;br /&gt;Para aqueles que querem mais um personagem para sua coleção, desdobrei-me em transformar as notas de rodapé em argumento principal e entoar, a lira à mão, poemas sobre cada uma das pessoas que me rodearam, escritos em redondilhas amigas da récita. Os vilões são vilões, os heróis, heróis, e também fiz, com rimas e métricas mais elaboradas, versos para alguns mais complexos e arquetípicos sujeitos, para que esses leitores se detivessem e fizessem análises profundas de uma humanidade que sonham para si. Fiz de tudo, menos falar sobre mim mesmo, porque sei que toda minha obra será muito mais eloqüente do que minha pessoa, até mesmo para falar sobre a tal da minha pessoa.&lt;br /&gt;Há também um último leitor, para quem nunca escrevi nada e que é, no final das contas, o único leitor. Severo e inclemente, para ele todas as palavras são excessivas, todos os adjetivos desnecessários, nenhuma idéia bem-concebida. Tampouco consegue achar no arranjo e seqüência, ainda que da mais elementar frase construída, qualquer coerência, qualquer nexo. Sua única intenção é reduzir os excessos, e ele toma isso como o trabalho de sua vida, sente que está reescrevendo a obra a cada parágrafo que apaga, a cada eliminação de um luxo rebuscado e retórico, a cada confusão ou incompreensão, tão pouco apreciada no mundo editorial. Sua má-impressão é a única impressão possível. A esse único leitor confio minha obra completa, aquela de tomos e tomos, nunca concluída. Só ele, de tanto lê-la, conseguirá reduzi-la a nada. Seu último grande feito será o de verificar que nem mesmo meu nome está bem na capa do livro e que meu único testamento é ser transubstanciado no trato digestivo das traças.&lt;br /&gt;Aliás, como ele realmente bem me lê, fará de mim pergaminho.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7601124-5023558800668894290?l=queroserbilontra.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://queroserbilontra.blogspot.com/feeds/5023558800668894290/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=7601124&amp;postID=5023558800668894290&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7601124/posts/default/5023558800668894290'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7601124/posts/default/5023558800668894290'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://queroserbilontra.blogspot.com/2008/07/ovo.html' title='ovo'/><author><name>Irautz Libel</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='13980418396999773170'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7601124.post-6450773155186389983</id><published>2008-06-16T20:29:00.006-03:00</published><updated>2008-06-17T12:38:47.077-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Não há nada como um bom prato, cheio&lt;br /&gt;De dúvidas, promessas não-cumpridas,&lt;br /&gt;E que abrigue em sua massa, bem-guarnidas,&lt;br /&gt;Fatias de ansiedade, por recheio.          &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;O tempero da verdade é um receio&lt;br /&gt;De viciar com o hálito as vidas&lt;br /&gt;Presentes com as voltas e as idas&lt;br /&gt;Desandadas do molho-devaneio.&lt;/p&gt;        &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;Vez que agora degusta e se lambuza&lt;br /&gt;Com a sobremesa da inteligência&lt;br /&gt;Benigno misto de medusa e musa,&lt;/p&gt;        &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;Transforma-se vaidade na essência&lt;br /&gt;Com delicadeza - vedada escusa -&lt;br /&gt;Numa taça plena de paciência.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7601124-6450773155186389983?l=queroserbilontra.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://queroserbilontra.blogspot.com/feeds/6450773155186389983/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=7601124&amp;postID=6450773155186389983&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7601124/posts/default/6450773155186389983'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7601124/posts/default/6450773155186389983'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://queroserbilontra.blogspot.com/2008/06/no-h-nada-como-um-prato-bem-cheio-de.html' title=''/><author><name>Irautz Libel</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='13980418396999773170'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7601124.post-3853873619684890814</id><published>2008-06-08T13:05:00.004-03:00</published><updated>2008-06-08T13:17:36.814-03:00</updated><title type='text'>Dupla</title><content type='html'>Estância rochosa imaginada, onde outono era quieto e a camada de sol pleno no escol das horas declinava, os hábitos dourados da terra e a delicadeza de eternidades, o que se buscava, amenas felicidades. O descanso não da lida, apenas do prazer de friccionar contra os penedos a preciosa vida, que a todo momento se mostrava, num dia lento como esse em que os olhos fechava e nada era pensamento, além de um partido distante e saudoso, do qual refém. Assim permanecia.&lt;br /&gt;No dia, porém, houve uma visita, aquela figura ímpar no horizonte, bendita, era a esperada. Impaciente como só mesmo a impaciência das temporadas, entreabri os olhos e mantive-os assim, até que por uma prudência de caráter, pensei nos confins e novamente os fechei, como que a sorrir com os olhos em homenagem a quaisquer escolhos. Ela se aproximava, branca e clara, como em meus sonhos imaginara, vicejando em torno de si a bondade dos dias mornos e a verdade que só mesmo aquele tempo e lugar poderiam engendrar.&lt;br /&gt;Seus cabelos eram vertentes do futuro, puras enchentes de minério raro. Um caro mistério ressoava em seu sorriso, mel das sementes, preciso véu de tantas premissas e primícias. Os olhos, de tão negros, eclipsaram o sol, vítima de seu segredo, esplêndido arrebol.&lt;br /&gt;Desconhecia o medo, abraçamo-nos e, naquele instante, o ritmo da vida deixou de ser constante. Qual figura de outras eras, éramos quimeras de um deus humano, um certo Prometeu, um certo Jano a contemplar somente futuros, muros à nossa frente, nós, que pelos laços, inventamos o presente no espaço.&lt;br /&gt;Na nossa união ainda mais rica, nasceu, de prontidão, a estrela preferida de Adão e sua prole. Na argila ainda mole, esferas foram concebidas como planetas em cada volta de sua ida. Criamos alamedas nos campos vastos, cobrimos de morada viva os furos e as feridas e, por fim, mortificamos os duros emplastos que de todas partes se ofertavam.&lt;br /&gt;Ainda hoje, mesmo agora, sou castigado pela espora da memória, quando seus olhos, anteparo da história, buscavam apoio nos vértices do céu. Vejo ainda, revel, seu braço sobre o meu, ameaça de partida, na praça, sua mão de artista a segurar uma linha imprevista mas esperada, como sua branca e clara chegada.&lt;br /&gt;Notificado de minha incapaz arte, escrevo esse quadro à parte de tudo. Melhor seria, eu sei, se pudesse e conseguisse ficar mudo. Melhor seria se a palavra fosse o que sou, só escudo, quase nada, a proteger essa figura pura e linda, rítmica e pausada.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7601124-3853873619684890814?l=queroserbilontra.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://queroserbilontra.blogspot.com/feeds/3853873619684890814/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=7601124&amp;postID=3853873619684890814&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7601124/posts/default/3853873619684890814'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7601124/posts/default/3853873619684890814'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://queroserbilontra.blogspot.com/2008/06/dupla.html' title='Dupla'/><author><name>Irautz Libel</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='13980418396999773170'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7601124.post-4466312587650501899</id><published>2008-05-03T00:41:00.005-03:00</published><updated>2008-05-03T02:01:24.011-03:00</updated><title type='text'>Rosa</title><content type='html'>Sangravam as bordas do céu, findando a tarde. O que se via mesmo era verão, a lenta e silenciosa marcha das raízes encobrindo os pastos e as pegadas que procurava. Resoluto aspecto, por veredas inusitadas, iam as pregas de suor, cortina do dia. No fundo, era a paz, a partida do coração sublime em volta da paz prometida, deliberada. À barba cerrada entranhava-se o desejo de fiéis e sucessores, os seus. A tortuosa maneira de seus dias na palma da mão escrita, levada à vera linha, muito concebida e estruturada. Tinha a prova e a refutação aos argumentos, as sínteses elevadas e as conclusões fundamentadas; vislumbrara, numa tarde parecida com essa, o caminho.&lt;br /&gt;Abaixo disso, as pegadas. Sem nenhum propósito conhecido, a besta existia, mesmo antes dele, e se dizia eterna. Não se dizia, se fixava.&lt;br /&gt;Os bons dias rareavam, as árvores negavam sombra. Os longos anos incontados agora se margeavam em excesso e falta. No mapa da cidade estava a razão, as léguas terminadas, os limites derrubados. Era necessário um fim, à fera insaciável, sumidouro, antes que um outro viesse e a derrotasse.&lt;br /&gt;O homem da cidade vinha, vinha e não temia. Antes, desprezara os louros, agora deles fazia esteira. O bronze das distantes ilhas, as mágicas dos horizontes, nada mais o apetecia. Apenas queria e amava, como se amor fosse possível, naquela época.&lt;br /&gt;Caçadores frugais já a avistaram, fugidia, agourenta, lombos de hiena, guinchos, pesadas penas e o coração apedrejado pelo medo, cerco sem beira. Sempre perto da oliveira, a que demarca a terra, partilha dos inocentes, verdades consagradas dos pais dos homens. O sol ali se punha, luz oblíqua dando pavoroso aspecto à alameda onde, diziam, numa baixa, deixavam-se os óbolos do oculto fim da estrada.&lt;br /&gt;Aproximando-se o homem da cidade, embaçaram-se os olhos, o suor encrespou-se e o peso dos passos tornou-se surdo. Entre as árvores, os raios escapados do sol dardejavam sua pele de lilases. Ouviu um terrível som e avistou a considerável distância, entre os arbustos, leão imenso, sentado e ofegante. A gigantesca cabeça, juba de terra de toda parte, estava ligeiramente inclinada à esquerda, mesmo tendo avistado o homem, desdenhosa.&lt;br /&gt;Soberbo sorriso, ele hesitou em acreditar fosse a besta, temida por sua geração e pelo menos cinco anteriores. Queria alertá-la de que estava ali e que não era como os outros, fugidos ou capturados, veio para estar e decidir o futuro do impasse.&lt;br /&gt;Preparou a arma, concluiu a mira e alvejou, acertando o flanco do animal, que não se mexeu. Lançou mais uma e outra vez e o leão, então, calmamente, virou a cabeça e fixou os olhos nele. Nesse instante, sem que percebesse, estava ao lado da fera, vultosíssima. Sua mente sabia de constelações e de relevos, de medidas e simetrias, de conceitos e verdades, mas nada lhe explicava como se aproximou sem perceber da fera. Concluiu, então, irrefutavelmente, que o leão é que havia aumentado de tamanho.&lt;br /&gt;Notou que o animal tinha marcas de sangue, não de ferimentos de sua arma, mas de suas vítimas, e que sua pele era túrgida como os penedos limosos.&lt;br /&gt;Então, saiu da besta uma voz – embora a boca não se mexesse:&lt;br /&gt;– Sei quem és, e para que vieste.&lt;br /&gt;Apavorado, o homem percebeu que sua própria boca, sim, estava aberta, mas que não conseguia pronunciar palavra. Continuou o leão, quieto:&lt;br /&gt;– Estou velho e cansado. Teu mundo é triste como uma lembrança futura que tive há pouco. Toma tua espada e perfura meu peito, o que deves fazer.&lt;br /&gt;Ele paralisado. A fera, então, abocanhou seu braço esquerdo, congelando-o e esmigalhando-o, divulgando morte ao resto de seu corpo. Sem que pensasse, desembainhou sua faca e a meteu no ventre do leão que se abriu e engoliu seu outro braço. O homem da cidade não se recordava de quanto tempo durou isso, bem como, em geral, pouco restou de qualquer memória.&lt;br /&gt;Seu braço foi expelido e alongada a lâmina da faca, que passou a verter sangue, sem parar, de um perfume que nunca antes sentira. Tirou o outro braço, totalmente recuperado, da boca do leão e tentou segurar as lágrimas, a que parassem de cair pelo chão, via os caminhos do suor. Chorou, chorou até se cansar. Deitou-se apoiado ao corpo da fera e suas lágrimas misturaram-se ao sangue que jorrava. Foi então que na lâmina brotaram as rosas vermelhas, e o homem dormiu e sonhou, pela primeira vez.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7601124-4466312587650501899?l=queroserbilontra.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://queroserbilontra.blogspot.com/feeds/4466312587650501899/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=7601124&amp;postID=4466312587650501899&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7601124/posts/default/4466312587650501899'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7601124/posts/default/4466312587650501899'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://queroserbilontra.blogspot.com/2008/05/sangravam-as-bordas-do-cu-findando.html' title='Rosa'/><author><name>Irautz Libel</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='13980418396999773170'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7601124.post-3714681401405021666</id><published>2008-04-20T19:06:00.005-03:00</published><updated>2008-04-20T19:22:55.264-03:00</updated><title type='text'>Emília em alemão</title><content type='html'>Dono de grande generosidade, &lt;a href="http://hanginglydia.skypaperpress.com/"&gt;Markus Hediger&lt;/a&gt; traduziu esse meu texto para o alemão, algumas vezes, na minha parca intelecção da língua, até mesmo melhorando-o.&lt;br /&gt;Meu reconhecimento não poderia se dar por outra via que não colocá-lo aqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Emília mit dem langen Haar, violettes Rankenornament, das seine Züge nachzeichnet, wie Schriften entlang einer toten Wand, dem Schild.&lt;br /&gt;Emília, Mädchen des gemessenen Schrittes, der Kadenzen, der kindlichen Angst, der Gesänge in der Stille, der bemühten Zurückhaltung, und stolz.&lt;br /&gt;Emília, ewiges Lächeln, ein Leben gemacht und ungemacht, zweifelnd im Ursprung schon, diese Schweigende Emilia, die sich von der ewigen Liebe, von der ewigen Leidenschaft ihrer Dinge bewegen lassen will.&lt;br /&gt;Emília, die Moderne, denkt sich irgendwas und es interessiert mich nicht, denn sie vergisst mich, denkt sich verführt und wieder vom urbanen Leben. Emília, Schönheit aus den Fugen der Zeit, Herrin der Hände, mutig und unerschrocken, bescheiden aber reif, Feld einer nie endenden Ernte, auf meiner Zunge sammelst du Erinnerungen: Emília, zukünftige Frucht meines Leids, notwendige Liebe, unausweichlicher Tod, Falter am heissen Licht.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7601124-3714681401405021666?l=queroserbilontra.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://queroserbilontra.blogspot.com/feeds/3714681401405021666/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=7601124&amp;postID=3714681401405021666&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7601124/posts/default/3714681401405021666'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7601124/posts/default/3714681401405021666'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://queroserbilontra.blogspot.com/2008/04/emlia-em-alemo.html' title='Emília em alemão'/><author><name>Irautz Libel</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='13980418396999773170'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7601124.post-1205298935617624818</id><published>2008-04-20T03:32:00.003-03:00</published><updated>2008-04-20T04:37:13.641-03:00</updated><title type='text'>Outrora</title><content type='html'>E então, Emília.&lt;br /&gt;Antes ainda, Dorinda.&lt;br /&gt;Amor, ai, amor que não finda. Derradeiragem dos meus dias. Contagem eterna de sofrimento. Gota pendurada que não cai. Ai, amor.&lt;br /&gt;Martha, amo-te como um corte transversal no tronco.&lt;br /&gt;Dorinda, amo-te à guisa da beleza convincente das possibilidades, da luz que teme os cantos e beiradas. Dorinda dos quadris largos e pacientes, beleza pura das misturas puras, pupa da minha noite sem estrelas. Ah, Dorinda... quando estiveste tão perto de mim, quando desististe do siso para alimentar essa cruel doença em mim arraigada. Teu fustigante negro pelo e os dentes mais lindos do planeta, mais oficiais e oficiosos. Desejei-te no agreste das veredas, Dorinda, vestido de nossas crianças todas juntas, alpercatas e amor todos dias, com tua doçura incontida, a me contar anedotas do teu fastidioso cotidiano. Dorinda, por um dia abandonei tudo e raptei-te a essa minha rústica casa de barro, do outro lado do rio, onde sempre concordamos e abraçados esperamos a aurora para dormir eternamente.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7601124-1205298935617624818?l=queroserbilontra.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://queroserbilontra.blogspot.com/feeds/1205298935617624818/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=7601124&amp;postID=1205298935617624818&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7601124/posts/default/1205298935617624818'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7601124/posts/default/1205298935617624818'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://queroserbilontra.blogspot.com/2008/04/outrora.html' title='Outrora'/><author><name>Irautz Libel</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='13980418396999773170'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7601124.post-9176258437619549738</id><published>2008-03-12T17:10:00.013-03:00</published><updated>2008-04-20T03:42:47.183-03:00</updated><title type='text'>G</title><content type='html'>Descansei após a fuga e o trabalho bem feito. A falta de costume me pôs &lt;span style=""&gt;–&lt;/span&gt; entre hostis e ocupados rostos enviesados por lamparinas &lt;span style=""&gt;–&lt;/span&gt; onde menos me adaptava, para que não me reconhecessem. Assim era o instinto naqueles tempos. No entanto, lá foi que ouvi as palavras, hoje acredito, para serem ouvidas. Como uma presa fácil, só tive uma saída, dissimular a imputação.&lt;br /&gt;Aproximou-se e, com um gesto inesperado, típico da espécie, pousou as mãos em minhas costas e me disse, nada encabulada, que havia gostado de mim. Minha nobreza, experiente em emboscadas, não me permitiu reação. Ardilosa, então, ela passou a desfiar histórias algo disparatadas que tangiam vez e outra as faces do seu corpo que, sem que percebesse, ia se alinhando ao meu.&lt;br /&gt;Senti um começo de vertigem quando vi seus belos e vívidos olhos verdes cosendo um inolvidável encanto. Eram passadas frustrações, medos, e a eterna angústia de se proteger quando me vi solto naquela vasta planície onde a capoeira era um campo de construir, ainda uma vez, fronteiras livres. Ela me mostrou o mar em que me dissolvia: um indivíduo tão pequeno, tão nada solene, tão enigmático e inesperado; ela, porta-voz do universo.&lt;br /&gt;Embora eu nada fizesse, não sabia o que fazer. Era necessário sair da inércia e tomei o impulso de beijá-la para que pudesse absorver o oco sonoro que ela emitia e me aniquilava, uma derradeira e patética tentativa &lt;span style=""&gt;–&lt;/span&gt; uma vez que não me era mais confiável a visão &lt;span style=""&gt;–&lt;/span&gt; de decifrar a temperatura daquele corpo que me consumia há algum tempo pelo simples contato.&lt;br /&gt;Um beijo longo, nossa comunicação.&lt;br /&gt;Seu sorriso era negro e fundamental, varizes da vida que ela mal começara a ter. Lembrei-me de quantas outras passaram ao largo e entendi como toda a minha vida só fazia sentido porque aqueles seres fascinantes nunca se deram conta de minha existência. Agora era isso, a pena de vê-la triunfar e ouvir eu dizer que era linda, como nos meus sonhos.&lt;br /&gt;Sabia de onde vinha, mas não sabia o que esperava nem se eu era sua primeira vítima. Essa a natureza das coisas, temos vítimas mas só um algoz. E assim instamos e estivemos, no que se chama amor, entre nós. Perguntei seu nome e disse que agora era preciso ir. E minhas últimas palavras foram, declaradas, para a mulher dos meus sonhos.&lt;br /&gt;Fui com a esperança de que assim como a encontrei dentro de mim, ela me encontrasse dentro dela, mais do que proteínas a serem digeridas.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7601124-9176258437619549738?l=queroserbilontra.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://queroserbilontra.blogspot.com/feeds/9176258437619549738/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=7601124&amp;postID=9176258437619549738&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7601124/posts/default/9176258437619549738'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7601124/posts/default/9176258437619549738'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://queroserbilontra.blogspot.com/2008/03/descansei-aps-fuga-e-o-trabalho-bem.html' title='G'/><author><name>Irautz Libel</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='13980418396999773170'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7601124.post-6825908093378488579</id><published>2007-11-11T20:38:00.000-02:00</published><updated>2007-11-15T13:43:35.335-02:00</updated><title type='text'>Ahimsa</title><content type='html'>As fontes vizinhas quase secam e as noites se alongam. Esqueci-me de contar os dias. Perdi a referida hora pela taça que deixou escapar a areia. Noites e noites desde que, no horizonte, o sol se escondeu. Quanta surpresa esse mundo reserva aos tolos. Um eclipse margeou minhas certezas de um vermelho celeste e eu recuperei algo de esperança, a tua esperança.&lt;br /&gt;Passa o rio velho, investindo no resto de galho que teima em não se desarraigar. Perdi a conta de quantos ovos depositamos no lodo, à base daquela árvore. Tu já ouviste dizer que alguns deles esperam vingar, não já? É de se rir. Mas não posso.&lt;br /&gt;Penso em ti e paro de respirar. Há, sim, verdade na idéia de transbordar o tempo através de uma relação íntima e essencial, onde as trocas se dêem pela honestidade da matéria, pura e simples. Envolver uma centelha de energia e participar do movimento o mais tímido possível é como arremedar o único sentido do universo. Não, pensar não é tão simples, e dura muito, tu sabes. Tenho apenas a vantagem do tamanho diminuto, da insignificância, e essa certeza de que tu podes ser, para além de mim, algo nem completamente diverso nem completamente igual.&lt;br /&gt;Ensaio um choro quando vejo que entendes tudo como uma experiência material, pura e simples. Mas não tenho olhos para ver, nem para chorar. Minha estupidez é natural, mas única, irremediável. Acredito ser possível, um dia, que saibas não ser eu um estranho capricho da natureza. Creio mesmo que possas compreender que não existe natureza, apenas isso: o movimento. Um movimento disforme, senhor, inconsciente e inconseqüente, que teimas chamar de vontade.&lt;br /&gt;Quando tento aqui comunicar-me contigo, apelo para tua memória, para tua temperança, mas, acima de tudo, para tua sede de saber. Nada é possível de ser escrito. Absolutamente. O néctar secou as fontes vizinhas, como o orvalho feriu nossas cicatrizes. A praça onde hoje pus toda minha vida é a mesma praça de qualquer parte do mundo. Um quadrado circunscrito onde o ritual da simplificação amaina toda mesquinharia e toda excelência.&lt;br /&gt;A mim mesmo, só a memória basta. As cômodas cócegas de ter suas palavras, as tuas. Edificamos nossa existência através da santa dedicação ao alimento, usamo-nos demais a nós mesmos a ponto de perecer e, então, tornamo-nos outra coisa, transfigurados nesse lícito passar de vivências. Nada mais é concebido senão em erro; nosso tamanho, nossa capacidade e mesmo nossa vontade. O que nos diferencia de nós mesmos é o estranhamento e a dependência. Pois, tu mesmo, senhor, uma vez, disseste-me que para poder enxergar tudo era necessário ter compaixão. Às vezes, tu me surpreendias.&lt;br /&gt;Já não me alimento de mel. Tenho, agora, as pétalas. Pus toda minha vida num botão de flor, sem perfume.&lt;br /&gt;Vendo na esquina o vento leste trazendo todas as justiças, padeci desses perjúrios. Invoquei minhas estadas, meus poderes, minhas juntas, minha sabedoria, e, na medida em que me lembrava, eles sumiam, com o pó de néctar que secava as fontes vizinhas. Sabes que nossa espécie é resistente, mas temi, naquele momento, por nossa extinção; apenas, o pó levou também o temor embora.&lt;br /&gt;Com a noite, perdi meus sentidos, perdi minha vez. Animais covardes que somos, a noite sempre nos incomodou, muito embora nossos abrigos escuros e úmidos fossem débil prova do contrário. A paz que tanto apregoas é estado de seres superiores, a complexidade factual do rei que firmou acordo para o bem geral. Desconheço.&lt;br /&gt;Pensava ter me perdido, mas encontrei este belo astrolábio. Pus toda minha vida nele. Estas linhas são coordenadas que tracei do que me sobrou. Só isso. Nada é possível de ser escrito. Apenas borrões de memória que deixo para ti, senhor, junto à taça de areia. Ou seria pó? Já não posso saber.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7601124-6825908093378488579?l=queroserbilontra.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://queroserbilontra.blogspot.com/feeds/6825908093378488579/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=7601124&amp;postID=6825908093378488579&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7601124/posts/default/6825908093378488579'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7601124/posts/default/6825908093378488579'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://queroserbilontra.blogspot.com/2007/11/as-fontes-vizinhas-quase-secam-e-as.html' title='Ahimsa'/><author><name>Irautz Libel</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='13980418396999773170'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7601124.post-4098856457800261355</id><published>2007-04-27T22:33:00.001-03:00</published><updated>2008-04-21T17:24:19.190-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Sentada sobre as patas desde aquelas épocas ou datas, lembrava-se de sua casa, aberta na mata, hoje deserta. Vistosos seus olhos tinham o vigor cansado do passado, seus desejos apunhalados sob o chão das crateras, subjugadas feras. Cansada mas alerta, esperando-me na caserna dos anos dourados e quentes, quando meias-palavras eram entendidas como sementes.&lt;br /&gt;Virtudes antes dela, concretas, floresciam pelas arestas. Agora, sob seu ventre, um ramo de esporas deitando mazelas, açudes estéreis horizonte afora. O dorso quieto espanta insetos em espasmos do dia qual figura vacilante, fantasma no anteparo, dragões raros de fantasia.&lt;br /&gt;Quem um dia lhe sonhou estática e eterna, ou, em delírios de inverno, pôs-lhe rios entre as vértebras, quis que reis e sacerdotes a olhassem, glosassem motes pelos idos dos séculos, xeque-mate.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu, alheio, virava o descampado bem no meio, onde o aclive se aumentava, lugar que ainda estive quando devagar pensava nos méritos das emboscadas dos coiotes livres. Amedrontado ia, sem saber o que me estava, sem estar no que sabia. Pacientemente ao vê-la, pura esfinge, ergui a guarda, para que me confinasse o fim da tarde na areia que não tem mais face.&lt;br /&gt;Levantou-se em dignado intento, fez com que o vento parasse e instou o meu pensamento. Fremente, o tempo se indagou se ainda era tempo, se ausente. Variei meu passo e percebi, no outro lado, caminho vasto entre minha vida e o triste aspecto da figura resumida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Puras chegam para vós, nada mais vos será poupado. Eis meu corpo em chamas consumado. Cada grão nesse deserto, em vão por vós desperdiçado, um segundo na vida do sujeito antepassado. Cemitério de vossas laringes roucas, retratos de loucas mulheres apoucando-se aos pés de pragmáticos. Bile de virago varrendo os céus de vossas vilas, maná de espantalho. Rota gota de orvalho na aba dos vossos chapéus, a última à estiagem.&lt;br /&gt;Aberta vagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O corpo ferve, a língua serve.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7601124-4098856457800261355?l=queroserbilontra.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://queroserbilontra.blogspot.com/feeds/4098856457800261355/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=7601124&amp;postID=4098856457800261355&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7601124/posts/default/4098856457800261355'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7601124/posts/default/4098856457800261355'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://queroserbilontra.blogspot.com/2007/04/sentada-sobre-as-patas-desde-aquelas.html' title=''/><author><name>Irautz Libel</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='13980418396999773170'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7601124.post-117565542147502633</id><published>2007-04-03T22:36:00.000-03:00</published><updated>2007-04-04T00:02:34.240-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Luana, a exata dimensão das iguanas. Tempo lato em que transfiguramos, o fundo imenso do espaço. Morte certa e lenta das praias que arrebentam no escoadouro dos penedos. Luana dos dolorosos segredos.&lt;br /&gt;Veredas no seu dorso, o sol em descompasso. Verdes idos de um deserto desejado por deuses e vassalos. Couro molhado, látego do além-mar. Virtude sem par do simples brotar de um musgo. Escuso desdouro das palavras. Pálidas moradas, amadas e invejadas da alva à alvorada. Luana alcançada pelas jangadas da esperança. Luana criança.&lt;br /&gt;Minha aquarela, Luana amarela. Feita de palhas e cambraias, tive medo de seus dedos, alfaiates de mortalhas. Semente obtusa, olvidada de veludos e camurças, secando o nitroso do leito idoso, amargo das ervas-mates. Luana dos abacates.&lt;br /&gt;Mordida funda na derme segunda das leis inermes. Vermes famintos de fósseis futuros nas paredes dos muros de Roma. Minério em coma transformado em pistilo de antanho. Estranho asilo no mel de marimbondo, céu de chuva, estrondo no horizonte. Luana do amado instante.&lt;br /&gt;Exilada do arrimo estulto, Luana sob seus pés um vulto.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7601124-117565542147502633?l=queroserbilontra.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://queroserbilontra.blogspot.com/feeds/117565542147502633/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=7601124&amp;postID=117565542147502633&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7601124/posts/default/117565542147502633'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7601124/posts/default/117565542147502633'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://queroserbilontra.blogspot.com/2007/04/luana-exata-dimenso-das-iguanas.html' title=''/><author><name>Irautz Libel</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='13980418396999773170'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7601124.post-117548639066148298</id><published>2007-04-02T00:50:00.000-03:00</published><updated>2007-04-04T00:04:58.023-03:00</updated><title type='text'>Ameixa</title><content type='html'>Não tinha dito coisa alguma.&lt;br /&gt;Agora a hora, quase uma&lt;br /&gt;Em que costuma&lt;br /&gt;Ter mais razão&lt;br /&gt;O coração,&lt;br /&gt;Fingindo, sem mais pressa,&lt;br /&gt;Ao aprendiz&lt;br /&gt;Dos mais hostis&lt;br /&gt;O fim que lhe interessa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem interesse, põe-se a escuma&lt;br /&gt;Sobre a água, bem como fuma&lt;br /&gt;A densa bruma&lt;br /&gt;Na escuridão.&lt;br /&gt;Tal inversão&lt;br /&gt;Faz com que eu te não meça&lt;br /&gt;De onde a raiz&lt;br /&gt;Vai à cerviz,&lt;br /&gt;Pois és tão vasta peça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pede o teu gesto uma oração&lt;br /&gt;Para libertar da prisão&lt;br /&gt;Um nome em vão&lt;br /&gt;Que não se diz.&lt;br /&gt;Seja feliz&lt;br /&gt;Mesmo o que não confessa.&lt;br /&gt;A ti assuma&lt;br /&gt;Quem se consuma&lt;br /&gt;No altar que te mereça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem te merece dá-te a mão,&lt;br /&gt;Contigo olha a imensidão&lt;br /&gt;Dita nação&lt;br /&gt;Que te condiz,&lt;br /&gt;Imperatriz,&lt;br /&gt;O Estado que não cessa&lt;br /&gt;E se avoluma&lt;br /&gt;Até que suma&lt;br /&gt;Na volta que atravessa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Através de um só verso eu quis&lt;br /&gt;Caçar-te, arredia perdiz,&lt;br /&gt;Me satisfiz&lt;br /&gt;Com uma pluma,&lt;br /&gt;O que enciúma&lt;br /&gt;Até uma abadessa.&lt;br /&gt;Com tal condão&lt;br /&gt;Espero, então,&lt;br /&gt;Que Amor em mim só cresça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cresce com vagar o que eu fiz&lt;br /&gt;Em teu peito, que às coisas vis&lt;br /&gt;Fez-se juiz.&lt;br /&gt;Não te presuma&lt;br /&gt;Isso que arruma&lt;br /&gt;A que eu não entristeça.&lt;br /&gt;Nesse verão&lt;br /&gt;Cata do chão&lt;br /&gt;Doce mas seca ameixa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Prístina prevaleça.&lt;br /&gt;Irautz diz não&lt;br /&gt;A qual canção&lt;br /&gt;Que em ti pense e se esqueça.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7601124-117548639066148298?l=queroserbilontra.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://queroserbilontra.blogspot.com/feeds/117548639066148298/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=7601124&amp;postID=117548639066148298&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7601124/posts/default/117548639066148298'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7601124/posts/default/117548639066148298'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://queroserbilontra.blogspot.com/2007/04/ameixa.html' title='Ameixa'/><author><name>Irautz Libel</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='13980418396999773170'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7601124.post-117312831292666550</id><published>2007-03-05T16:52:00.000-03:00</published><updated>2007-03-05T18:18:53.556-03:00</updated><title type='text'>Chanson</title><content type='html'>Quando chega a primavera&lt;br /&gt;Farto-me de ti, ó fruto&lt;br /&gt;Que dá esse forte galho,&lt;br /&gt;Totalmente sem apuro.&lt;br /&gt;Da tua casca só o veludo&lt;br /&gt;Acaricia meu dedo,&lt;br /&gt;Anunciando o que cedo&lt;br /&gt;Em mim de grave fez agudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O cheiro que em ti libera&lt;br /&gt;As entranhas do absoluto,&lt;br /&gt;Anti-hálito do alho,&lt;br /&gt;Oxigênio que mensuro.&lt;br /&gt;Junto ao teu tamanho miúdo&lt;br /&gt;Ouso-me julgar aedo&lt;br /&gt;Quando não sou que folguedo&lt;br /&gt;Pensando xadrez o teu ludo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tu não és maçã nem pera,&lt;br /&gt;Teu nome é mais resoluto.&lt;br /&gt;Não há para ti atalho,&lt;br /&gt;Teu gosto é o gosto mais puro.&lt;br /&gt;A exuberância de tudo&lt;br /&gt;Em ti é o que dá mais medo,&lt;br /&gt;Não há melado ou levedo&lt;br /&gt;Que me sirvam de algum escudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que foi gerado gera&lt;br /&gt;Semente no corpo bruto.&lt;br /&gt;Teu útero é agasalho,&lt;br /&gt;Conforto, ainda que escuro.&lt;br /&gt;Ver assim teu corpo desnudo&lt;br /&gt;Por dentro, só é degredo,&lt;br /&gt;Um bem que não me faz ledo,&lt;br /&gt;Ser seco no teu ser carnudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com teu estigma e antera&lt;br /&gt;Curaste meu escorbuto,&lt;br /&gt;Com teu único trabalho&lt;br /&gt;Voltei do podre ao maduro.&lt;br /&gt;O que louvo em ti, sobretudo,&lt;br /&gt;É o limo no penedo,&lt;br /&gt;Teu dormir, teu sorrir quedo&lt;br /&gt;Teu caule no sonho que exsudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Longa mas tão pouca espera&lt;br /&gt;Por tirar de ti o produto,&lt;br /&gt;Quase me disperso e falho&lt;br /&gt;Ao fazer o certo furo.&lt;br /&gt;Descobre Amor o seu estudo&lt;br /&gt;No aroma de seu segredo,&lt;br /&gt;Pois é doce como azedo,&lt;br /&gt;Tudo diz quanto mais é mudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Indeiscência que Irautz quer tudo,&lt;br /&gt;Tua sazão chegou cedo.&lt;br /&gt;Quanto mais gentil te hospedo&lt;br /&gt;Mais enfermo fico e saúdo!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7601124-117312831292666550?l=queroserbilontra.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://queroserbilontra.blogspot.com/feeds/117312831292666550/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=7601124&amp;postID=117312831292666550&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7601124/posts/default/117312831292666550'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7601124/posts/default/117312831292666550'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://queroserbilontra.blogspot.com/2007/03/chanson.html' title='Chanson'/><author><name>Irautz Libel</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='13980418396999773170'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7601124.post-117026862086895849</id><published>2007-01-31T16:34:00.000-02:00</published><updated>2007-01-31T16:37:30.686-02:00</updated><title type='text'>Cantiga</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal"&gt;O rey de meu cuidado&lt;br /&gt;Que es de meu amado?&lt;br /&gt;O rey de meu abrigo&lt;br /&gt;Que es de meu amigo?&lt;br /&gt;Y el sol per compaign&lt;/p&gt;            &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;O rey de meu castigo&lt;br /&gt;Que es de meu amigo?&lt;br /&gt;O rey de meu pasado&lt;br /&gt;Que es de meu amado?&lt;br /&gt;Y el sol per compaign&lt;/p&gt;            &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;Que es de meu amigo&lt;br /&gt;Raiz de meu olvido?&lt;br /&gt;Que es de meu amado&lt;br /&gt;Fruto del abacado?&lt;br /&gt;Y el sol per compaign&lt;/p&gt;            &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;Que es de meu amado&lt;br /&gt;Se me lo ay pinchado?&lt;br /&gt;Que es de meu amigo&lt;br /&gt;Se me lo ay cogido?&lt;br /&gt;Y el sol per compaign&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7601124-117026862086895849?l=queroserbilontra.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://queroserbilontra.blogspot.com/feeds/117026862086895849/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=7601124&amp;postID=117026862086895849&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7601124/posts/default/117026862086895849'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7601124/posts/default/117026862086895849'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://queroserbilontra.blogspot.com/2007/01/cantiga.html' title='Cantiga'/><author><name>Irautz Libel</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='13980418396999773170'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7601124.post-116840751525490674</id><published>2007-01-10T03:32:00.000-02:00</published><updated>2007-01-10T14:09:50.526-02:00</updated><title type='text'>Rondeau</title><content type='html'>Três com um, dezoito, quinze e mais doze,&lt;br /&gt;Essa a semente crescendo, difusa,&lt;br /&gt;À fruta abacate, em voz animosa,&lt;br /&gt;Três com um, dezoito, quinze e mais doze.&lt;br /&gt;Deito meu zelo sob copa frondosa&lt;br /&gt;Da floresta, unissoníssima musa,&lt;br /&gt;Três com um, dezoito, quinze e mais doze,&lt;br /&gt;Essa a semente crescendo, difusa.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7601124-116840751525490674?l=queroserbilontra.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://queroserbilontra.blogspot.com/feeds/116840751525490674/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=7601124&amp;postID=116840751525490674&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7601124/posts/default/116840751525490674'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7601124/posts/default/116840751525490674'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://queroserbilontra.blogspot.com/2007/01/rondeau.html' title='Rondeau'/><author><name>Irautz Libel</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='13980418396999773170'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7601124.post-116818700100523504</id><published>2007-01-07T13:21:00.000-02:00</published><updated>2007-03-05T16:40:06.476-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Amanhecendo, fui ao encontro. Percebi no seixo como a noite havia sido quente, o suor das arestas gravando meus pés. O momento em que se abrigam esperanças na dureza das rochas, no espessar de sujo que não as arredonda, pois todas o que querem é estar no mar, justamente sepultadas.&lt;br /&gt;Naquele tempo, menos padecíamos pela cobiça, apenas, de longe, apreciávamos a qualidade do que foi e o pulsar do que sobrevinha. Mais ou menos, tínhamos à força uma delicadeza gentil, amoral, explícita, o sangue frio espreitando o agreste unívoco, sideral.&lt;br /&gt;Nosso homem me esperava, quieto, como sempre, há muito sem notícias. Eu ia em missão, fora escolhido dentre os mais capazes e, verdade dita, mais dispensáveis. Era já manhã, e eu ia, pela estrada velha e deserta. O silêncio do vento me fez lembrar do bom cheiro da terra, do salgado enorme que se enterra sob a espécie de claro que nos queima a pele e os pelos. Era aí que chegava mais perto da falta, do antes de qualquer palavra e sem nenhum consolo para nenhum desespero. O espelho das altas moradas ali estava, na monta do caminho que me levasse a ele, o homem.&lt;br /&gt;Foi quando senti, vale abaixo, o aroma das oliveiras, sutil mas pronunciado pelas mãos distintas e vibrantes de seus ramos. Estranhei ouvir mais o retorcer das madeiras do que a folhagem avigorando verde o teor dos mosaicos. Menos palha do que cepo, meus pés começavam a pesar na empreitada.&lt;br /&gt;Pensando se deveria descansar, procurei na encosta uma sombra e vi que não estava só. Um carneiro branco de brilhantes cornos ruminava, parado, mas com a pata dianteira esquerda ligeiramente levantada, como a querer dar um passo que nunca ia. Pensei em me aproximar mas vi em seus olhos vermelhos um soturno vaticínio: esse era o carneiro que morreria e me forneceria alimento por sua carne, em holocausto, por minha importante viagem. Assim eu deveria entender que o santo alimento de sua boca era para mim santo alimento, uma vez que não havia pastagem por ali a que ruminasse. Voltei e me pus novamente no caminho, baixando os olhos, como que para não resumir um delírio que me tomava os tempos. Meu corpo todo doía.&lt;br /&gt;Mais à frente, no caminho, senti um ligeiro incômodo sob os pés, como que pequenas ranhuras no solo tomando forma. E cresciam, consoante o caminho se inclinava, e se tornavam novamente delgadas quando se aplanava. Eram raízes, cobertas de poeira e duras, fósseis, que emergiam dentre os pedregulhos. Firmei o pé sobre uma delas e pude sentir que eram bem menos quentes do que o caminho. E também, cada vez mais iam tomando forma e se emaranhando, já não mais respeitando a inclinação. Apavorei-me com o fato de que não ia conseguir chegar a tempo diante daqueles obstáculos, e as raízes começavam, agora, a despontar do chão, mirando cegamente um crescer, um buscar indefinido entre elas mesmas, secas e retorcidas. Pensei ter visto algumas respirando, enganei-me, apenas eu, na pressa, deixando um rastro de cortes e quebradiças. Minha cabeça doía e já não tinha mais certeza da razão da preocupação que me tomava. Apenas seguia, agora, com a vaga idéia de que era isso que devia fazer, entre as tábuas de raízes, entre o lenho do mangue seco, estava eu a derramar meu sangue, fertilizando as potestades que por lá viviam. Nessa hora, passou-me a mente a figura de um homem pequeno, fraco, em andrajos e feliz, cruzando os campos e cantando, como se a nossa vida daqueles tempos tivesse algo de ser cantado. Sorri e já não podendo mais continuar, senti que as raízes me espetavam e que já não podia mais olhar para nenhum lugar que não fosse o alto, o extremo alto. Ouvi o ranger de me quebrar o pescoço. Na realidade, não sabia se era realmente o alto pois nada mais havia que pudesse me referir. O que ali a via, verde, a copa de uma bela oliveira, exalando um perfume raro.&lt;br /&gt;Deixando de ser, escorrido, percebi que um atrevido inseto tateava, em busca da seiva.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7601124-116818700100523504?l=queroserbilontra.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://queroserbilontra.blogspot.com/feeds/116818700100523504/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=7601124&amp;postID=116818700100523504&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7601124/posts/default/116818700100523504'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7601124/posts/default/116818700100523504'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://queroserbilontra.blogspot.com/2007/01/amanhecendo-fui-ao-encontro.html' title=''/><author><name>Irautz Libel</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='13980418396999773170'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7601124.post-116132319106231520</id><published>2006-10-20T02:18:00.000-03:00</published><updated>2006-10-20T02:46:31.073-03:00</updated><title type='text'>Pêssego</title><content type='html'>Estou seco.&lt;br /&gt;E por isso, só por isso, sofro as penas do inferno.&lt;br /&gt;Estou cego.&lt;br /&gt;E por isso, só por isso, agarrei-me tão fortemente às profundezas do lago.&lt;br /&gt;Estou cepo.&lt;br /&gt;E por isso, só por isso, expirou-me a boca do leão.&lt;br /&gt;Estou pego.&lt;br /&gt;E por isso, só por isso, o tártaro me consome.&lt;br /&gt;Virá o fogo purificador de duas faces, sobre carneiro, a que tudo reinicie.&lt;br /&gt;A partir dos ossos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7601124-116132319106231520?l=queroserbilontra.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://queroserbilontra.blogspot.com/feeds/116132319106231520/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=7601124&amp;postID=116132319106231520&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7601124/posts/default/116132319106231520'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7601124/posts/default/116132319106231520'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://queroserbilontra.blogspot.com/2006/10/pssego.html' title='Pêssego'/><author><name>Irautz Libel</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='13980418396999773170'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7601124.post-116123818559074807</id><published>2006-10-19T03:02:00.000-03:00</published><updated>2006-10-20T20:41:40.886-03:00</updated><title type='text'>Ossos molhados</title><content type='html'>Àquela hora da noite, neste sublime mundo, pensei estar sozinho e quase dormia, enquanto a chuva percutia o meu crânio.&lt;br /&gt;Meus olhos molhados.&lt;br /&gt;E, no entanto, lá estava, na periferia do alcance, uma estranha quadrúpede figura, vultosa, contra a tênue luz das últimas vidas boêmias. Um pouco contra a vontade e a recomendação dos doutores, firmei a consciência e deixei que o frio me retomasse para conseguir definir o quadro. Um cão, à porta, olhando para os miseráveis que lá restavam, tentando sorver a última transparência da noite. Olhava, com a típica inabalável esperança de sua raça, ainda que dobrasse uma das patas, irreparavelmente machucada. Era velho, alguns de seus dentes já haviam virado pedra e eu quase podia sentir o cheiro dos inúmeros anos nos seus pelos chovidos.&lt;br /&gt;Atento à cena, sentia meu coração cada vez mais apertado com a patética perseverança canina, ainda que, vez ou outra, seu olhar se desviasse, como querendo cinicamente despistar as evidências. Certo, era um animal mentalmente débil e enquanto eu formulava essas questões um dos comensais, o mais bem apessoado, lançou-lhe um grande pedaço de carne, que ele tentou abocanhar ainda no ar mas, talvez devido ao tamanho do petisco, a sua perdida destreza ou ainda à refração das gotas da chuva, acertou-lhe em cheio o dorso e foi parar na corredeira da sarjeta. O bicho, manquetolando, salvou-a por pouco das perdições do esgoto e foi para o outro lado da rua, cuidadoso com o trânsito, saborear sua recompensa. Mas o esforço havia terminado com ele. Acabou adormecendo, com a cabeça apoiada na carne.&lt;br /&gt;Levantei-me e fui para junto dele. Precisava, naquele momento, sentir que alguém no mundo sonhava comigo, dormindo em travesseiro mais macio do que os próprios ossos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7601124-116123818559074807?l=queroserbilontra.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://queroserbilontra.blogspot.com/feeds/116123818559074807/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=7601124&amp;postID=116123818559074807&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7601124/posts/default/116123818559074807'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7601124/posts/default/116123818559074807'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://queroserbilontra.blogspot.com/2006/10/ossos-molhados.html' title='Ossos molhados'/><author><name>Irautz Libel</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='13980418396999773170'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7601124.post-115985320546026825</id><published>2006-10-03T00:11:00.000-03:00</published><updated>2006-10-06T12:03:55.376-03:00</updated><title type='text'>osso</title><content type='html'>Nada que eu pudesse fazer.&lt;br /&gt;Foi como a encontrei, deitada, olhos fechados, como que a ouvir o que a terra tinha a lhe dizer. Lembrei-me da gentileza com que o arado faz caminho na terra úmida do começo da primavera, do natural e certeiro mergulho dos pelicanos em busca do peixe mais tenro e do borbulhar silencioso das nascentes: a seta abria esteio em meu peito, a lâmina quente, já antiga mas nunca esquecida. Abaixei-me para recolhê-la, temendo que qualquer movimento meu, mesmo uma respiração errada ou descadenciada, pusesse tudo a perder. Senti entre meus dedos aquele fio de vida, a excelência da criação dos tecidos, como uma tênue exibição do infinito espaço naquela translúcida pele. Então pude ver suas cores, as que sempre escondeu, enrubescida; cores naturais, como as que sempre se espera, não fosse a pressa de não lhes dar atenção. Estava ali, inerme, e como é comum nessas horas, meus sentidos se multiplicaram, pude ver todos os esquadros e curvas, as elevações e declives, a maciez e a tepidez, o cheiro da última ceia e sob qual abóbada se deu: tudo que fazia dela ela, nada mais.&lt;br /&gt;Como eu gostaria de encontrá-la sempre viva, sempre externa dentro de mim. Como só então me dei conta de que era a primeira vez que a sentia assim. Não estava morta, e suas penas verdes, recém-nascidas, eram miseramente um símbolo para quem sempre os procurou. Hesitei entre admirá-la naquele momento ou fechar os olhos e imaginá-la, sem a imaginação. Gostaria mesmo de não sentir mais minhas mãos para que, anti-demiurgicamente, a criatura criasse a ferramenta do criador.&lt;br /&gt;No momento em que adivinhava os elementos que a compunham, que entrava em comunhão com cada vereda de seu ser, que previa os movimentos involuntários de seu corpo, ela entreabriu os olhos e minhas mãos, sempre frias, começaram a se esquentar. Senti uma leve vertigem quando percebi que seria descoberto, que seu olhar vinha em minha direção. Ao perder meus sentidos pelo escoado de um sumidouro, o negro dos olhos dela fez com que o sol nascesse dentro dos meus e eu só pudesse ouvir o pulsar da terra. Já não havia nada a fazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apenas senti um conforto por todo o corpo, como se alguém me segurasse.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7601124-115985320546026825?l=queroserbilontra.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://queroserbilontra.blogspot.com/feeds/115985320546026825/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=7601124&amp;postID=115985320546026825&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7601124/posts/default/115985320546026825'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7601124/posts/default/115985320546026825'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://queroserbilontra.blogspot.com/2006/10/osso.html' title='osso'/><author><name>Irautz Libel</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='13980418396999773170'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7601124.post-115803724780575515</id><published>2006-09-12T01:20:00.000-03:00</published><updated>2006-09-12T13:26:32.530-03:00</updated><title type='text'>Azimute</title><content type='html'>Ao longe, certo era, ou estava.&lt;br /&gt;Com as possíveis medidas, ela singrava o velho mar, no começo daquele dia. Parte de sua estatura visava o convés, via popa, na fronteira dos fragores submarinos. Formavam bela escuna seus passos, e a estrada acompanhava calma e ansiosa, sua breve caminhada entre os sargaços. Meus olhos doeram, colírio ácido, estômago vazio das temporadas de pesca.&lt;br /&gt;Então, seguindo a rota, avistou a clara bóia onde fizemos estadia. Sua busca, algo desesperada, era por meus tesouros, que eu os perdia naquele exato momento, delicado contravento das despedidas. Levantada a bandeira das boas-vindas, aproximou-se, negociamos a vertente da sequência, e seguiu bordo, por onde, claro, estendia-se o sol das manhãs passadas.&lt;br /&gt;O sol das manhãs passadas em sua vela referiu-me o pensamento que me dera, quando de outras viagens. Reveladas eram suas idéias por o vão das madeiras curadas e onde estavam separadas da flanela. Ela tinha um hábito de buscar rapidamente, entre os instrumentos de precisão, o corte das estrelas, o rumo norte, a cardealidade dos dias comuns no alto-mar. A precisão, sim, dos seus olhos, que quando a quando olhavam para o nada, semelhança do interior, vero engano.&lt;br /&gt;Divisada, entre as desesperadas lacunas das alçadas, entre as maresias e as cracas do vau ligeiro do estibordo, nu, como sempre, sem ser invadido pela salinidade corrosiva dos estuários.&lt;br /&gt;Estremeci como uma pequena onda, cansada de ser levada mar afora e que de repente se crê consciente quando inexistente. Como um ligeiro encalhe, tentei me precaver da infinitude do invisível, abaixo-superfície, calado. Amedrontei-me frente à possível escuridão das fossas que nela estavam, em que batia o coração das espécies nunca encontradas.&lt;br /&gt;Mas era um borbulhar incômodo na quilha, que a passagem dela causava à embarcação, fazendo com que eu me lembrasse das épocas em que navegávamos alegres entre as piores condições. Tínhamos tudo no peito, hoje, tudo na memória.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É possível que tenhamos honrado nosso futuro, selado nossas vidas no mar sem fim, glacial, silencioso, em que sempre sonhamos, aterrorizados, estar. Sim, é possível. Como faremos, no dia em que o vento for favorável e reconhecermos que o caminho é sempre de volta, porque apenas dele nos esquecemos.&lt;br /&gt;Longe, longe, certo estará, ou será.&lt;br /&gt;Da pluma nascerá a dor. Da dor, a voz. Da voz, o choro, o eterno dos mares. Junto ao horizonte, em pé, ela estará, prestes a provar a existência da Terra, sua qualidade esférica, nossa incapacidade de concentração no sextante. E um dia, chegada à praia, ela acolherá com sua simplicidade e calma todas nossas histórias, cansada de tanto esperar pelo fim delas. Digo, não cansada, apenas com a paciência esquecida, bocejando para o oeste, para que os companheiros tenham a sorte por rever seus familiares.&lt;br /&gt;Nesta hora, perto está, onde já adeus é impossível.&lt;br /&gt;A ela.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7601124-115803724780575515?l=queroserbilontra.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://queroserbilontra.blogspot.com/feeds/115803724780575515/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=7601124&amp;postID=115803724780575515&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7601124/posts/default/115803724780575515'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7601124/posts/default/115803724780575515'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://queroserbilontra.blogspot.com/2006/09/azimute.html' title='Azimute'/><author><name>Irautz Libel</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='13980418396999773170'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7601124.post-114885363549467079</id><published>2006-05-28T18:12:00.000-03:00</published><updated>2006-05-29T01:51:01.806-03:00</updated><title type='text'>Infectio</title><content type='html'>E o prurido nos olhos aumentava, conforme íamos avançando a noite, fria lança. A paciência que nos era exigida já uma vez vinda, nunca esperada, resistíamos por nosso ofício, à calada. Entre as folhagens, penetrávamos, pétalas de margaridas murchadas, a quem nos pudesse ver. Mor de continuarmos, puxávamos uns aos outros e nessa hora, sorridentes, confundia-se o que éramos, apenas poeira dos calços. Indo e indo, deixávamo-nos iludir pela margem das letras minúsculas, rugas dos troncos, ainda quentes do crepúsculo. Bordávamos, e o nosso encontro era sadio, deveras natural, à nossa despedida respondiam as falésias - só eu, outrora, me lembrava do mar e das nuvens.&lt;br /&gt;Vertemos fumo, giramos roda, inflamos vela, enviamos os melhores às estreitezas e raros nos tornamos, nossa espécie. Não foi pequeno esforço, um resto de casca nos dentes, as cores das pedras destiladas, lassa água nos acompanhando e o éter, eterno presente das miniaturas, únicas amigas. Insistimos pelo envolto da encosta e encontramos: a graciosa, boa e bela.&lt;br /&gt;Até ela, um rosário, doce aroma. Obstinamos em nossa pontiaguda cegueira, alargando aqui e ali nossa experiência. Sentimos. Era o momento de separarmo-nos. Para que se cumprissem as escrituras, eu então. O calor era claro do arfar de seu bojo, negra fruta. Tornei suas costas e tateando o colo senti o fremir. Nossa viagem, preconizada, era por ela e ela não ouvia. Grandes olhos cerrados, àquela época, eclipse. Entrei, delicado e respeitoso, respiração que se calava. Minas mundanas e periféricas, umbigos inúteis. Achei o baricentro e dardejei. Cáustico látego,  vital mistério.&lt;br /&gt;Lança, fria noite.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7601124-114885363549467079?l=queroserbilontra.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://queroserbilontra.blogspot.com/feeds/114885363549467079/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=7601124&amp;postID=114885363549467079&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7601124/posts/default/114885363549467079'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7601124/posts/default/114885363549467079'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://queroserbilontra.blogspot.com/2006/05/infectio.html' title='Infectio'/><author><name>Irautz Libel</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='13980418396999773170'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>2</thr:total></entry></feed>