Quarta-feira, Dezembro 10, 2008

A flor do abacate

Quando eu era criança, o mundo inteiro estava a meu alcance. As brincadeiras duravam dias, as histórias não se limitavam pelo espaço, apenas a imaginação governava; e a imaginação, para um garoto que passava as tardes no quintal de sua casa, era tão grande quanto o imensurável universo dos adultos.
A cidade, como outras na fronteira entre os estados de São Paulo e Minas Gerais, estava incrustada entre as montanhas, tinha sido fundada como refúgio aos desbravadores, que ali paravam para usar a água do rio que a corta. Na época da minha infância, havia poucas habitações, e a nossa casa ficava num dos morros. A vista era bonita, tínhamos o privilégio de ver a cidade e, no morro ao lado, o Cristo no topo, pairando sobre a cidade e seus habitantes.
Minhas brincadeiras se davam à sombra de um frondoso abacateiro, cujas folhas longas, espessas e escuras proviam um perfeito abrigo para o sol da tarde, abrigo que se transformava em palco de incontáveis batalhas, fortaleza dos meus soldadinhos de plástico, campo inexplorado de uma guerra sem motivos e sem baixas. Quando me cansava a fantasia, era eu mesmo que me tornava o aventureiro a colocar a bandeira inédita do progresso em galhos cada vez mais altos e delgados. Havia uma simples e misteriosa simbiose entre nós. O topo do mundo, como eu via, era o topo do abacateiro, e cada veio de seus troncos, cada folha que nascia, ainda clara, o perfume da seiva, cada formiga ou lagarta que me acompanhava naqueles dias, tinha o mesmo pensamento que o meu, ou talvez nem fosse pensamento, apenas a constatação de que éramos um só, silenciosos nas tardes do interior.
No entanto, à medida em que eu crescia, o abacateiro ficava menor, bem como a imaginação, as escaladas e os detalhes, que meus sentidos teimavam em desperceber. Naturalmente, eu não dava muita atenção àquilo. Meu pai, por sua vez, investia na casa, construiu alguns cômodos, cimentou a entrada, ergueu uma cerca no terreno ao lado e aumentou a grade da varanda que dava para a rua. Cercado por um canteiro, imponente e caprichosamente ignorante de tudo que se passava a seu redor, o abacateiro continuava a florescer. Ele tinha sido plantado porque eu e meu pai adorávamos abacate com leite de manhã. No entanto, já outros gostos se desenvolviam. Agora, o café industrializado, o leite em caixa e o suco concentrado tinham prevalência. Não demorou muito para que os abacates fossem esquecidos. Como já ninguém aproveitava sua sombra, nenhuma rede era pendurada no seu tronco e a seu redor proliferava um ambiente úmido e insalubre, claramente visível nos ladrilhos brancos do novo quintal, também não demorou para que viessem à tona as folhas secas que entupiam os escoadouros, as formigas vermelhas que ameaçavam a horta, e, principalmente, a obstrução da vista de parte da cidade pela folhagem da árvore.
A decisão tinha sido tomada. Não se pensou muito a respeito. Eu mesmo só fiquei sabendo quando o vizinho já estava lá, preparando a motosserra. Era uma manhã de outono e confesso ter sentido uma ponta de tristeza, nada além. Naquele dia, eu só pensava na prova que faria em instantes (não podia me esquecer de onde se encontravam as carnaúbas no mapa colorido do livro de geografia). Quando voltei para casa, o abacateiro não estava mais lá, apenas um toco e uns galhos amontoados junto à cerca de trás da casa. Ainda que uma lágrima vacilasse dentro de mim, retive-a, confiava em meu pai, ele devia ter feito aquilo por uma boa causa. De fato, encontrei-o parado na janela da sacada, olhando para a cidade. Disse-me: "Como cresceu isso tudo... Você se lembra de como era o morro do Cristo antes? Quase nenhuma casa, só o mato e a estradinha." Eu não disse nada. Contemplei a cidade e vi o rio, canalizado, vi o outro morro, o da antena, desmatado, quase estéril, não fosse uma rala vegetação e alguns bois pastando, vi o colorido desenfreado das habitações no centro da cidade, vi um terreno baldio com placas, umas carroças abandonadas e, ao lado, um menino maltrapilho arremessando um pião. Como já era mocinho, fui para trás da casa derrubar a lágrima que agora mais do que se justificava. Então era aquele o espetáculo que o abacateiro me impedia de ver. Não sabia se devia estar agradecido a ele por conhecer a verdade, mas minha covardia me corroía por ter acreditado que a vista larga de desconhecidos hostis era melhor do que a presença amiga e segura de um cúmplice da minha infância. Ali estavam, amontoadas no fundo da casa, a pureza dos meus sonhos, a ilusão de tempos melhores, as saudades de uma felicidade plena.
Eu sobrevivi. Afinal, ainda existem muitas outras árvores por aí. Aquele abacateiro me forneceu um universo na imaginação, ao mesmo tempo em que me protegia da face austera deste mundo, da mesma maneira simples e calada como me protegia do sol. A verdade revelada, por sua vez, me fez crescer e amadurecer. De certo modo, hoje o que sou é fruto de uma flor de abacate.

Quarta-feira, Julho 16, 2008

O veludo das virgens

Olha os adornos floridos,
Sente o perfume irisado,
Ouve o afinado riso
Das acetinadas

Virgens, como que vazias
Estrelas no ocaso vivo,
Sentinelas divulgadas
Com forte alarido.

Vê, agora, atrás das portas
Esquecidas, desmontadas
Éguas fortes e fiéis,
Flechas amoladas.

Verteram atrás de si
Um oceano de sangue.
É seu uso se vestir
De veludo branco.

Os pés por si adornados,
As coroas seus cabelos,
Os olhos muitos espelhos
Partiram com zelo.

As belas virgens do ocaso
Amam-te, pela manhã,
Cantam-te belas canções
De um tempo futuro.

No futuro, vespertinas,
Dançam para o horizonte
Abrindo-se a tua semente,
Condição divina.

Resta o sol, tímidos raios
Escondidos, agrupadas
Embaralham-se no ninho,
Cosem as mortalhas.

Vê nos seios mutilados
As palavras, quase nada.
Distantes e sós estão nas
Sombras evaporadas.

Estimado amigo, vê
O que de grado te digo:
Essa não é mais que aquela
Que diz ser a lua.

Derruba o sentido agora,
Vira teus versos adentro,
As tulipas, rododendros,
Esquece, e as rosas.

Há em tua propriedade,
Suficientes e quietas,
(Quiçá mesmo aveludadas)
Mil flores silvestres.

À noite, dorme feliz,
Não tenhas sonhos, resiste,
Pois a alvorada te espera;
Tens cansada a vista.

Espera-te a nova vaga.
Mas lembra que no poente
Deixaste uma bela imagem
Por outra, contente.

Uma história polaca (II)

Numa dessas tardes de outono, fazia um calor incomum e Lubomir, cansado, acabou adormecendo junto a uma de suas árvores prediletas. Ele que nunca sonhava, nesse dia teve um sonho vívido, colorido e detalhado, muito provavelmente porque nem percebeu que dormia. A lembrança seria possível, não fosse o modo com o qual foi acordado; um susto causado por um canto que nunca ouvira, grave, escuro e que vinha de uma árvore ao lado. Já expirava a tarde, segurada delicadamente pelo sol que teimava no horizonte, luz oblíqua. Lubomir avistou o eclipse de uma ave de rapina num corpo atarracado, a criatura virou o pescoço e seus grandes olhos brilharam, uma coruja. Ele nunca havia visto uma e ela parecia não se importar com a presença dele. No entanto, seu amor aos pássaros foi imprudente e a brusquidão com que se levantou fez com que ela alçasse vôo em direção à enseada. Sem pensar, ele seguiu correndo atrás dela pelo labirinto pouco iluminado da floresta que tão bem conhecia. A ave voava, veloz, mas parava sempre em um galho ou outro, tempo de Lubomir quase alcançá-la e ela, novamente assustada, retomar o vôo. Até que, num repente, ela tomou a direção do ocidente e sumiu nas profundezas das árvores velhas, onde Lubomir sabia que não poderia jamais encontrá-la nem segui-la. Sentiu uma tristeza profunda, logo superada pelo pânico ao perceber seus pés molhados e aquela inconfundível brisa soprando o lado direito do seu rosto. Ele estava na enseada.
Olhou para aquela imensidão de água e divisou uma figura, vizinha do sol que se punha. Era uma embarcação simples, com um homem em pé, remando, e uma menina, toda vestida de branco logo atrás. Ela olhava para baixo, mas quando levantou os olhos, direcionou-os para ele e assim os manteve, fixos. O barco se aproximava e Lubomir não conseguia se mexer, tamanho fascínio aquela figura lhe causava. Pensou se não era um dos animais devoradores da água e, embora sentisse muita vontade de fugir dali, não conseguia, seus pés estavam fixos na lama que a água fazia do solo.
Conforme o barco se aproximava, uma sensação inédita tomou conta de Lubomir. Ele percebeu que a menina não olhava para ele, mas sim para um outro ponto fixo em terra, à sua esquerda. Nunca fruto nenhum se mostrou tão doce, nunca pássaro nenhum havia cantado melodia tão bela, nada, nada naquele mundo vasto da floresta se comparava à sensação de ter sido olhado por aquela menina, mesmo que ela sequer tivesse percebido que ele estava ali. O barco também não vinha mais em sua direção, e, no entanto, ele continuava paralisado, olhando para ela. Notou então que ela trazia um colar de contas castanhas, que ele não conseguia entender o que eram, só lindas, e que de alguma forma realçavam os olhos de sua dona. A expressão dela era triste, uma tristeza esperançosa, como se seus olhos buscassem algo na floresta mas seu corpo estivesse preso na imobilidade.
Lubomir voltou para a aldeia, convicto de que nunca mais conseguiria pensar em outra coisa a não ser nos olhos da menina de branco.

Terça-feira, Julho 08, 2008

Uma história polaca (I)

Antes, a floresta já existia. Suas arestas, menos polidas, entravam, tímidas, pela aldeia. As copas, mais cerradas, eram escudos para os dardos solares e as veias de seus caminhos menos cheias de obstáculos. Ainda assim, observados os limites, era pequena, como hoje; cena dos corriqueiros dramas silvestres, misturadas vozes, cores apresentadas.
Antes, havia temporadas. Os pássaros migrados as inauguravam. Viam-se as flores e os frutos, a neve era firma dos antepassados. As pegadas gentis da caça não negligenciavam a honra dos repastos. Nos ventos apenas encontrava-se a discórdia dos movimentos, porque da enseada vinha, como a querer arrastar a floresta. Mas ela permanecia, não porque tinha convicções de estadia, apenas era a floresta e tinha na fertilidade da sua terra a seiva conquistada.

Lubomir, o filho da aldeia, adorava passar as tardes longe do povo, junto às árvores que margeavam a gleba abaixo de onde morava. Colhia os frutos silvestres, passeava por entre os desenhos solares que se formavam pelas frestas das copas ramadas, passava horas observando o cortejo das formigas na sua lida diária, mas o que mais gostava de fazer era tentar imitar o canto dos pássaros. Nunca fora muito de falar nem de rir, como seus irmãos, mas isso a ninguém importava. Sua mãe era doente e se limitava a ficar feliz se o filho não causasse problemas. Para ele, Lubomir, era melhor que a aldeia nem existisse, só o que queria era sentir-se feliz no silêncio das tardes mornas.
Naquela época, ainda não havia a proibição de passar os limites da floresta. Os paisanos naturalmente não gostavam de se aventurar por lá, só alguns caçadores penetravam na parte oriental, onde estavam o pasto e os animais de maior porte. Com isso, Lubomir nunca tinha visitas, vivia só, sem ser importunado; de tal modo conhecia cada caminho, cada árvore, cada colônia de formigas que, se alguma vez aquela floresta necessitasse de um dono, essa eleição teria esmagadora vitória dele, aclamado pelas raízes seculares, sob a ovação dos eternos musgos das rochas.
A água, no entanto, era temível. Ele conhecia a história das criaturas devoradoras que lá se escondiam, sempre à espera de quem se aproximasse ingenuamente a saciar sua sede. Perto dali, no limite ocidental da floresta, estavam o mangue e o grande carvalho, onde uma vez por ano acontecia a festa do protetor da aldeia, no início da primavera. Lubomir compartilhava do respeito e reverência do povo que, afora esse dia, nunca se avizinhava de lá, com medo dos espíritos que escapavam das inscrições lascadas na grande árvore.
Era costume, naquele tempo, por volta do meio do outono, quando os dias começavam a ficar mais curtos, ter início o plantio do centeio, já que o trigo raramente sobrevivia aos meses de inverno. Lubomir odiava os pães feitos de centeio, odiava mais ainda a cerimônia de preparo deles e passava os dias de outono na floresta, comendo raízes e insetos.
Recentemente, como tinha mais tempo e parecia ter esgotado os artifícios vocais e bucais para imitar os pássaros, e como ainda julgava não estar nem na metade de seu exaustivo trabalho de catalogação dos cantos, tinha arrumado um caniço ali onde o mangue fazia fronteira com a floresta e improvisado uma flauta, da qual conseguia tirar sons mais fortes e agudos e trilos próximos aos de alguns tordos e melros, proeza que suas cordas vocais, estalos e assobios jamais dariam conta.

Sexta-feira, Julho 04, 2008

Silêncio, por favor

A Biblioteca Branca de Alexandria está escondida.
A Biblioteca Branca de Alexandria está preservada.
A Biblioteca Branca de Alexandria não adquire, não empresta.
A Biblioteca Branca de Alexandria está em decomposição e, no entanto, só cresce.
A Biblioteca Branca de Alexandria contém fungos que há milênios estão extintos de qualquer outro lugar da Terra.
Os fungos mantêm o gesso de que é feita a Biblioteca Branca de Alexandria sempre livre do relento.
A rica vegetação que cobre o átrio da Biblioteca Branca de Alexandria detém em suas moléculas a panacéia da existência.
Sob a crosta de nematódeos de um dos tomos da Biblioteca Branca de Alexandria há o único pensamento verdadeiro jamais composto.
Na eterna penumbra da Biblioteca Branca de Alexandria, os ratos se tornam morcegos vampiros toda noite, e é essa a única maneira de ver o tempo passar.
Só uma flor brota do solo alcalino da Biblioteca Branca de Alexandria e é dela todo o perfume que por lá recende.
Há uma coerência na organização dos volumes da Biblioteca Branca de Alexandria há muito perdida.
A Biblioteca Branca de Alexandria fez de seus empregados escravos, e eles se deram a isso de boa vontade.
Os ossos dos escravos da Biblioteca Branca de Alexandria são brancos.
A Biblioteca Branca de Alexandria não tem mistérios.
Se alguma vez estiveres em Alexandria, não procures por ela, pois a Biblioteca Branca de Alexandria pode estar em qualquer parte, menos em Alexandria.

ovo

Diante de mim, a obra completa. Incontáveis tomos reduzidos a um só. Tive o trabalho redobrado da vida inteira para transformar cada palavra, cada vírgula, em uma forçada memória. Tentei de todas as formas ser breve e justo. Breve ao resumir os feitos, pensar, do alto dos meus avançados anos, o que seria mais edificante para a humanidade, de tudo que vi, compreendi e julguei. Justo ao apresentar todos os lados de uma vida humana exaustivamente vivida, não apenas um auto-encômio a restar empoeirado numa das prateleiras de um caridoso amigo.
Agora, eis o livro, sua capa branca e as páginas, salpicadas de tinta formando as letras que foram minha vida. Poderia recitá-lo, sem nenhuma falha. Mas ao pensar nisso, angustio-me, revivo o grande desgosto de uma passagem, a insatisfatória resposta para um problema em outra, a cruel e crua ingenuidade de uma última, que tanto trabalho me rendeu para achar as palavras certas. Sinto-me um péssimo ator, não sabendo representar minha própria experiência, como, de resto, só se vive de verdade quando não se escreve. A vida inventada é posterior, facilitada para a digestão dos leitores.
Então, sobra-me a consolação de ser lido por quem me conhece, por quem quer me conhecer e encontra algo de interessante nos esconsos dos meus pensamentos desconexos. A esses, o meu perdão do prefácio era desnecessário, porque eles podem ler sem os óculos da arrogância, da soberba de achar que minha sintaxe é a sua, de penetrar minha memória, minha imaginação, quando na verdade, só vivi e escrevi porque queria conversar com eles, naquele âmbito onde qualquer conversa era impossível. Aquele que consegue entender o espaço entre as letras das minhas palavras, a esse minha dedicatória.
Alguns tiram-me o sono. Passo a reler e fazer anotações, emendas, numa tentativa frustrada de fazer com que me entendam, ou que não me entendam e nem tentem me entender. Para esses, fiz uma edição diferente. Cortei os capítulos maçantes, os óbvios, as referências, as hipóteses. Eles têm um manual, uma primeira-mão de gêneros diversos, uma leitura leve e até mesmo humorada, onde nada digo, de maneira muito convincente. Escrevi um livro tolerável, desconfio, para poder tolerá-los.
Outros ainda pretendem ler minhas palavras não por mim, mas para comprovar alguma idéia que já têm, algum falso esconderijo de valores e vícios para apenas desnudar todo o resto das minhas falhas e erros que, aliás, nunca omiti. Para esses, fiz um apanhado de termos, uma enciclopédia biográfica, onde apenas remeto a outros autores que, respeitosamente, servem-me para tirar o peso e o visgo da humanidade hostil que carrego e pretendo que se vá comigo para sempre.
Para aqueles que querem mais um personagem para sua coleção, desdobrei-me em transformar as notas de rodapé em argumento principal e entoar, a lira à mão, poemas sobre cada uma das pessoas que me rodearam, escritos em redondilhas amigas da récita. Os vilões são vilões, os heróis, heróis, e também fiz, com rimas e métricas mais elaboradas, versos para alguns mais complexos e arquetípicos sujeitos, para que esses leitores se detivessem e fizessem análises profundas de uma humanidade que sonham para si. Fiz de tudo, menos falar sobre mim mesmo, porque sei que toda minha obra será muito mais eloqüente do que minha pessoa, até mesmo para falar sobre a tal da minha pessoa.
Há também um último leitor, para quem nunca escrevi nada e que é, no final das contas, o único leitor. Severo e inclemente, para ele todas as palavras são excessivas, todos os adjetivos desnecessários, nenhuma idéia bem-concebida. Tampouco consegue achar no arranjo e seqüência, ainda que da mais elementar frase construída, qualquer coerência, qualquer nexo. Sua única intenção é reduzir os excessos, e ele toma isso como o trabalho de sua vida, sente que está reescrevendo a obra a cada parágrafo que apaga, a cada eliminação de um luxo rebuscado e retórico, a cada confusão ou incompreensão, tão pouco apreciada no mundo editorial. Sua má-impressão é a única impressão possível. A esse único leitor confio minha obra completa, aquela de tomos e tomos, nunca concluída. Só ele, de tanto lê-la, conseguirá reduzi-la a nada. Seu último grande feito será o de verificar que nem mesmo meu nome está bem na capa do livro e que meu único testamento é ser transubstanciado no trato digestivo das traças.
Aliás, como ele realmente bem me lê, fará de mim pergaminho.

Segunda-feira, Junho 16, 2008

Não há nada como um bom prato, cheio
De dúvidas, promessas não-cumpridas,
E que abrigue em sua massa, bem-guarnidas,
Fatias de ansiedade, por recheio.

O tempero da verdade é um receio
De viciar com o hálito as vidas
Presentes com as voltas e as idas
Desandadas do molho-devaneio.

Vez que agora degusta e se lambuza
Com a sobremesa da inteligência
Benigno misto de medusa e musa,

Transforma-se vaidade na essência
Com delicadeza - vedada escusa -
Numa taça plena de paciência.

Domingo, Junho 08, 2008

Dupla

Estância rochosa imaginada, onde outono era quieto e a camada de sol pleno no escol das horas declinava, os hábitos dourados da terra e a delicadeza de eternidades, o que se buscava, amenas felicidades. O descanso não da lida, apenas do prazer de friccionar contra os penedos a preciosa vida, que a todo momento se mostrava, num dia lento como esse em que os olhos fechava e nada era pensamento, além de um partido distante e saudoso, do qual refém. Assim permanecia.
No dia, porém, houve uma visita, aquela figura ímpar no horizonte, bendita, era a esperada. Impaciente como só mesmo a impaciência das temporadas, entreabri os olhos e mantive-os assim, até que por uma prudência de caráter, pensei nos confins e novamente os fechei, como que a sorrir com os olhos em homenagem a quaisquer escolhos. Ela se aproximava, branca e clara, como em meus sonhos imaginara, vicejando em torno de si a bondade dos dias mornos e a verdade que só mesmo aquele tempo e lugar poderiam engendrar.
Seus cabelos eram vertentes do futuro, puras enchentes de minério raro. Um caro mistério ressoava em seu sorriso, mel das sementes, preciso véu de tantas premissas e primícias. Os olhos, de tão negros, eclipsaram o sol, vítima de seu segredo, esplêndido arrebol.
Desconhecia o medo, abraçamo-nos e, naquele instante, o ritmo da vida deixou de ser constante. Qual figura de outras eras, éramos quimeras de um deus humano, um certo Prometeu, um certo Jano a contemplar somente futuros, muros à nossa frente, nós, que pelos laços, inventamos o presente no espaço.
Na nossa união ainda mais rica, nasceu, de prontidão, a estrela preferida de Adão e sua prole. Na argila ainda mole, esferas foram concebidas como planetas em cada volta de sua ida. Criamos alamedas nos campos vastos, cobrimos de morada viva os furos e as feridas e, por fim, mortificamos os duros emplastos que de todas partes se ofertavam.
Ainda hoje, mesmo agora, sou castigado pela espora da memória, quando seus olhos, anteparo da história, buscavam apoio nos vértices do céu. Vejo ainda, revel, seu braço sobre o meu, ameaça de partida, na praça, sua mão de artista a segurar uma linha imprevista mas esperada, como sua branca e clara chegada.
Notificado de minha incapaz arte, escrevo esse quadro à parte de tudo. Melhor seria, eu sei, se pudesse e conseguisse ficar mudo. Melhor seria se a palavra fosse o que sou, só escudo, quase nada, a proteger essa figura pura e linda, rítmica e pausada.

Sábado, Maio 03, 2008

Rosa

Sangravam as bordas do céu, findando a tarde. O que se via mesmo era verão, a lenta e silenciosa marcha das raízes encobrindo os pastos e as pegadas que procurava. Resoluto aspecto, por veredas inusitadas, iam as pregas de suor, cortina do dia. No fundo, era a paz, a partida do coração sublime em volta da paz prometida, deliberada. À barba cerrada entranhava-se o desejo de fiéis e sucessores, os seus. A tortuosa maneira de seus dias na palma da mão escrita, levada à vera linha, muito concebida e estruturada. Tinha a prova e a refutação aos argumentos, as sínteses elevadas e as conclusões fundamentadas; vislumbrara, numa tarde parecida com essa, o caminho.
Abaixo disso, as pegadas. Sem nenhum propósito conhecido, a besta existia, mesmo antes dele, e se dizia eterna. Não se dizia, se fixava.
Os bons dias rareavam, as árvores negavam sombra. Os longos anos incontados agora se margeavam em excesso e falta. No mapa da cidade estava a razão, as léguas terminadas, os limites derrubados. Era necessário um fim, à fera insaciável, sumidouro, antes que um outro viesse e a derrotasse.
O homem da cidade vinha, vinha e não temia. Antes, desprezara os louros, agora deles fazia esteira. O bronze das distantes ilhas, as mágicas dos horizontes, nada mais o apetecia. Apenas queria e amava, como se amor fosse possível, naquela época.
Caçadores frugais já a avistaram, fugidia, agourenta, lombos de hiena, guinchos, pesadas penas e o coração apedrejado pelo medo, cerco sem beira. Sempre perto da oliveira, a que demarca a terra, partilha dos inocentes, verdades consagradas dos pais dos homens. O sol ali se punha, luz oblíqua dando pavoroso aspecto à alameda onde, diziam, numa baixa, deixavam-se os óbolos do oculto fim da estrada.
Aproximando-se o homem da cidade, embaçaram-se os olhos, o suor encrespou-se e o peso dos passos tornou-se surdo. Entre as árvores, os raios escapados do sol dardejavam sua pele de lilases. Ouviu um terrível som e avistou a considerável distância, entre os arbustos, leão imenso, sentado e ofegante. A gigantesca cabeça, juba de terra de toda parte, estava ligeiramente inclinada à esquerda, mesmo tendo avistado o homem, desdenhosa.
Soberbo sorriso, ele hesitou em acreditar fosse a besta, temida por sua geração e pelo menos cinco anteriores. Queria alertá-la de que estava ali e que não era como os outros, fugidos ou capturados, veio para estar e decidir o futuro do impasse.
Preparou a arma, concluiu a mira e alvejou, acertando o flanco do animal, que não se mexeu. Lançou mais uma e outra vez e o leão, então, calmamente, virou a cabeça e fixou os olhos nele. Nesse instante, sem que percebesse, estava ao lado da fera, vultosíssima. Sua mente sabia de constelações e de relevos, de medidas e simetrias, de conceitos e verdades, mas nada lhe explicava como se aproximou sem perceber da fera. Concluiu, então, irrefutavelmente, que o leão é que havia aumentado de tamanho.
Notou que o animal tinha marcas de sangue, não de ferimentos de sua arma, mas de suas vítimas, e que sua pele era túrgida como os penedos limosos.
Então, saiu da besta uma voz – embora a boca não se mexesse:
– Sei quem és, e para que vieste.
Apavorado, o homem percebeu que sua própria boca, sim, estava aberta, mas que não conseguia pronunciar palavra. Continuou o leão, quieto:
– Estou velho e cansado. Teu mundo é triste como uma lembrança futura que tive há pouco. Toma tua espada e perfura meu peito, o que deves fazer.
Ele paralisado. A fera, então, abocanhou seu braço esquerdo, congelando-o e esmigalhando-o, divulgando morte ao resto de seu corpo. Sem que pensasse, desembainhou sua faca e a meteu no ventre do leão que se abriu e engoliu seu outro braço. O homem da cidade não se recordava de quanto tempo durou isso, bem como, em geral, pouco restou de qualquer memória.
Seu braço foi expelido e alongada a lâmina da faca, que passou a verter sangue, sem parar, de um perfume que nunca antes sentira. Tirou o outro braço, totalmente recuperado, da boca do leão e tentou segurar as lágrimas, a que parassem de cair pelo chão, via os caminhos do suor. Chorou, chorou até se cansar. Deitou-se apoiado ao corpo da fera e suas lágrimas misturaram-se ao sangue que jorrava. Foi então que na lâmina brotaram as rosas vermelhas, e o homem dormiu e sonhou, pela primeira vez.